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Ofertas Públicas de Aquisição em um cenário de deterioração econômica e desvalorização cambial

23 de fev de 2016

Em 2013 escrevi um artigo falando sobre os diferentes tipos de OPA (Ofertas Públicas de Aquisição) e da necessidade das companhias transcenderem a obrigatoriedade legal e elaborarem um programa de comunicação muito bem estruturado para garantir um tratamento equânime para todos os acionistas. Enfatizei, naquele momento, as Ofertas Públicas de Aquisição de Ações para cancelamento de registro de companhia aberta e os casos citados foram CCDI, Redecard e Amil. Como há exemplos mais atuais, decidi voltar a abordar o assunto.

Cenário econômico e desvalorização cambial

Com a deterioração do cenário econômico, os preços das ações caíram e, com a desvalorização cambial, os ativos estão muito mais atraentes para controladores e investidores estrangeiros. Dessa forma, em 2015, o assunto voltou à tona com a OPA da Souza Cruz que reiniciou a intensificação de fechamento de capital de companhias brasileiras.

Caso - OPA Souza Cruz

A Souza Cruz estava listada em bolsa desde a década de 40 e era referência entre as Companhias de capital aberto como uma das melhores pagadoras de proventos. A ofertante, foi a British American Tobacco (BAT), controladora da Companhia, de origem britânica e que já detinha mais de 75% do capital social da Souza Cruz. A decisão da BAT, muito provavelmente, foi determinada levando em conta os seguintes fatores:

(i) ótima capacidade de geração de caixa da Souza Cruz;
(ii) o preço das ações da Companhia; e
(iii) spread cambial favorável.

A intenção da OPA foi divulgada em fevereiro de 2015, mas após reavaliação pedida pelos minoritários, a BAT aumentou o valor da oferta, com isto, o leilão de fechamento de capital da Souza Cruz ocorreu no dia 15 de outubro de 2015 e movimentou mais de US$ 2,4 bilhões, representando quase US$ 1 bilhão de economia aos cofres da empresa britânica, em relação ao que teria sido investido se a oferta tivesse se concretizado em fevereiro. O resultado para a BAT foi positivo devido à desvalorização da moeda brasileira anulando, desta forma, o incremento no preço ofertado pelas ações.

Ofertas em análise

Além de controladores estrangeiros, o cenário também está chamando a atenção dos sócios controladores brasileiros das companhias listadas na BM&FBOVESPA.


No momento, há 14 Ofertas Públicas de Aquisição em análise pela CVM, sendo que 12 são para cancelamento de registro de companhia aberta.


Temos, hoje, um panorama em que diversas companhias apresentam valor de mercado abaixo do valor patrimonial, portanto, além da grande quantidade de programas de recompra de ações (mais de 70 Companhias lançaram programas de recompra desde 2015) estão partindo para as ofertas públicas para cancelamento de registro de companhia aberta. No momento, há 14 Ofertas Públicas de Aquisição em análise pela CVM, sendo que 12 são para cancelamento de registro de companhia aberta.

Segue abaixo a lista das 12 Companhias cujas ofertas para cancelamento de registro estão em análise pela Comissão de Valores Mobiliários:

PROCESSO CIA. OBJETO ENTRADA
RJ/2015-04262 MARINA DE IRACEMA PARK SA 11/05/2015
RJ/2015-05579 (OPA Unificada) ARTERIS S.A. 01/06/2015
RJ/2015-07158 COMPANHIA CELG DE PARTICIPAÇÕES 08/07/2015
RJ/2015-08057 (OPA Unificada) BANCO DAYCOVAL S.A. 24/07/2015
RJ/2015-09905 (OPA Unificada) VIGOR ALIMENTOS S.A. 17/09/2015
RJ/2015-10253 MANUFATURA DE BRINQUEDOS ESTRELA SA 29/09/2015
RJ/2015-09687 IGUACU CELULOSE PAPEL SA 23/11/2015
RJ/2016-00006 (OPA Unificada) TEREOS INTERNACIONAL S/A 23/12/2015
RJ/2016-00604 UNIPAR CARBOCLORO S.A. 13/01/2016
RJ/2016-01309 WEMBLEY SOCIEDADE ANÔNIMA 29/01/2016
RJ/2016-01408 ÉVORA S.A. 04/02/2016
RJ/2016-01571 (OPA Unificada) BANCO SOFISA SA 05/02/2016

Decisão estratégica

Como já disse no artigo de 2013, assim como em uma abertura de capital (IPO), a decisão da OPA envolve uma série de avaliações das vantagens e desvantagens da companhia se manter listada em bolsa. O fechamento de capital é visto como uma oportunidade na gestão financeira e estratégica. Os custos para manter a Companhia aberta (CVM, BM&FBOVESPA, auditoria, publicidade legal, entre outros) e os esforços necessários para cumprir com a legislação específica podem pesar nesse momento e nada impede que uma Companhia volte a mercado futuramente. Portanto, com as perspectivas negativas da economia brasileira, provavelmente veremos mais algumas ofertas acontecendo.

João Marin
Sócio, Relações com Investidores
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