Relações com Investidores

Sobe crédito a empresa para compra de bens

01/09/2014

Analistas apontam que companhias estão usando bens como garantia para conseguirem crédito mais barato e sustentarem o capital de giro

Na contramão de outras linhas de crédito, o volume empréstimos com recursos livres concedidos a empresas para aquisição de bens - com exceção de veículos - cresceu em 44,8% nos últimos 12 meses. Foram R$ 794 milhões liberados em julho deste ano contra R$ 354 milhões do mesmo período do ano passado, segundo boletim de crédito divulgado pelo Banco Central na semana passada. Para analistas, as empresas estão financiando seus bens para sustentarem o capital de giro, alongando os prazos dos passivos e diminuindo os custos.

Segundo o professor de macroeconomia da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Silvio Paixão, as empresas estão optando por tomar empréstimos usando seus bens como garantia, pois essa linha de crédito possui juros menores. "Com a necessidade de capital de giro, as empresas estão pegando linhas de crédito (com prazos) mais longas", observou. "Não existe, contudo, bens infinitos na planta das empresas para elas ficarem tomando empréstimos", completou.

O presidente da Associação Nacional das Sociedades de Fomento Mercantil - Factoring (Anfac), Luiz Lemos Leite, avaliou que as empresas precisam de capital de giro para pagar a folha, os empréstimos e as outras despesas. "A empresa precisa sobreviver. Tem que financiar (através dos empréstimos) o giro de seu negócio para pagar os encargos", ressaltou. "É importante, entretanto, a tomada de empréstimos com prazos mais curtos possíveis, para ter um impacto menor na totalidade dos pagamentos", finalizou Leite.

Paixão afirmou que o crédito para aquisição de bens observado não está relacionado com investimentos - de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a queda do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foi puxado pela diminuição da taxa de investimentos, influenciado, principalmente, pela queda na Formação Bruta de Capital Fixo.

"Se houve aquisição, com certeza não foi de máquinas e equipamentos para melhora da capacidade produtiva das empresas. As aquisições podem ter sido de pequenos equipamentos, como computadores e máquinas menores", comentou o professor.

Apesar do saldo de crédito de recursos livres para aquisição de bens ter crescido, passando de R$ 7,78 bilhões um julho do ano passado para R$ 9,2 bilhões em julho de 2014 (alta de 19,1%), os prazos estão diminuindo. A queda, no acumulado de 12 meses, foi três meses - o prazo médio neste ano fechou em 30,8 meses contra 33,7, em 2013. "Mesmo que o crédito seja mais barato, ninguém quer ficar nele por muito tempo", analisou Paixão.
Na medição feita pelo BC do volume de concessão de recursos livres - em que os bancos definem livremente a forma de liberação e os juros - não foram considerados os empréstimos feitos por meio do Finem, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujos recursos são direcionados

Cautela

Os especialistas recomendaram que as pessoas jurídicas - principalmente as micro e pequena empresas - avaliem os riscos da tomada de crédito. "A gente está preocupado. O PIB está caindo e a tendência é a inadimplência aumentar e a indústria retrair. As empresas tem que tentar diminuir o máximo possível o risco e não aumentar a inadimplência", afirmou Luiz Lemos Leite.

Paixão disse que as empresas precisam fechar o caixa com muita atenção. "É preciso ter cuidado com o fluxo de caixa. A gente previu que o segundo trimestre ia ser mais fraco, e o endividamento ia ficar ainda mais pesado. A recomendação é que, a partir de agora, o endividamento seja o menor possível e que as linhas de crédito sejam as menos caras possíveis", orientou Paixão.

Autor: Pedro Garcia

Fonte: DCI