Bolsa

Retomada da confiança do investidor internacional com Brasil irá demorar

17/11/2015

Congresso Anual de Governança Corporativa debate os desafios para superar as dificuldades com a imagem negativa no exterior das companhias locais envolvidas em escândalos de corrupção

A retomada da confiança e da credibilidade do Brasil no exterior pode demorar "anos" para ser restaurada. O próprio presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Leonardo Pereira - em sua opinião - admitiu que os escândalos recentes impactaram o mercado de capitais.
"Tem problemas na Europa, no Japão, nos Estados Unidos e no Brasil, mas a diferença é que aqui gerou um risco sistêmico. O impacto na economia, eu diria, foi quase sistêmico. A questão começa na falta de controle, de ter compliance [práticas de monitoramento de riscos] e na falta de assegurar que os controles sejam razoáveis", respondeu Leonardo Pereira aos mais de 700 conselheiros e executivos presentes no 16º Congresso Anual do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), iniciado ontem, em São Paulo.
Ao DCI, o presidente da autarquia que fiscaliza o mercado de capitais disse que a sociedade brasileira tem cobrado a atuação do regulador. "Nós estamos fazendo o nosso trabalho, eu não sinto uma cobrança adicional, mas existe a cobrança que tem que ter de qualquer órgão regulador", afirmou.
A presidente do IBGC, Sandra Guerra, avalia que a confiança dos investidores estrangeiros no Brasil foi perdida. "Quando se perde a credibilidade, se perde em dois segundos. Mas podemos demorar muito tempo, anos, para retoma-la. O investidor internacional está ressabiado com o País, muito dinheiro foi perdido [na Bolsa de Valores] e há preocupação com insider trader [negociação de ações com informações privilegiadas] e outros fatores. Teremos de trabalhar um tempo até reconquistar essa confiança", disse.
Segundo ela, o Brasil terá que mostrar daqui para frente que possui um ambiente que protege melhor o investidor. "O grupo de interagentes [que reúne diversas entidades dos mercados financeiro e de capitais] deve lançar no início de 2016 uma ação muito grande para combater o insider trader", prometeu Sandra Guerra.
Outra iniciativa do grupo de interagentes para responder aos desafios atuais de controle e compliance no Brasil está na elaboração atual do Código Brasileiro de Governança Corporativa. Leonardo Pereira apontou que o código único deverá ficar pronto no final do primeiro trimestre de 2016.
"Depois de pronto [pelo grupo de interagentes], a CVM vai analisar e colocar em audiência pública, uma tradição antes de implantar [o código]. No caso do Pratique ou Explique, a empresa terá que elaborar um resposta que faça sentido, do estágio em que ela está. O Pratique ou Explique possibilita a capacidade [dos investidores e do regulador] de fazer um julgamento", disse Pereira.
Em outras palavras, as empresas brasileiras que seguirem o código único de governança corporativa terão que praticar (Pratique) as normas, ou explicar (Explique) ao regulador e ao mercado porque não seguem aquelas regras. Em teoria, essa explicação terá que convencer o regulador e o mercado. Em caso contrário de um explicação menos convincente, a resposta será precificada pelo mercado (ex. desconto no valor das ações ou da empresa) e analisada pelo orgão regulador, a CVM.
Criação de valor
Entre as experiências positivas com o aprimoramento da governança corporativa, a companhia aberta Smiles trilha o caminho da menor dependência em relação sua empresa-mãe, a Gol Linhas Aéreas.
"Toda a relação entre Smiles e Gol tem ser aprovada por um comitê independente e assim submetido ao Conselho de Administração. No caso do comitê negar uma transação, o Conselho terá que aprovar por unanimidade. E vale destacar que comitê independente faz parte do Conselho. É uma voz forte a do Comitê e assim se pretende que continue", disse ao DCI, o diretor presidente da Smiles, Leonel de Andrade.
Ele contou que a Smiles cresceu muito, mais que dobrou de tamanho em três anos, mas que parte do crescimento veio da diversificação. "Hoje somos mais relevantes para a Gol. Mas temos uma diversificação com outras companhias aéreas parceiras da Gol, e na área de turismo e entretenimento. Essa dependência da Gol está diminuindo [percentualmente], a relativa, não a absoluta. É uma estratégia para diversificar e trazer públicos novos, hoje servimos mais de 160 países [para viagens]. Há três anos, o resgate de pontos na Gol representava 93%, hoje representa 71%", calculou.
O presidente afirmou que a Smiles possui hoje uma governança corporativa avançada e que dá tranquilidade para operacionalizar a empresa. "Numa relação de partes relacionadas [com a Gol], o primeiro ponto é o bom senso, e isso temos praticado o tempo todo", diz.
Ontem, no Congresso, o presidente do conselho da Fibria, José Luciano Penido, também apresentou a evolução de sua companhia em governança para minimizar riscos. A empresa de celulose que antes sofria com invasões de terras por movimentos rurais, agora estabelece programas sociais com o Movimento dos Sem-Terra (MST), com comunidades pobres e rurais; comunidades quilombolas e de pescadores.

Fonte: DCI