Bolsa

Rebaixamento da nota brasileira pela Fitch eleva pressão por ajuste fiscal

16/10/2015

Conforme a agência de classificação de risco, questão política ganha mais visibilidade à medida que o governo tem dificuldades para aprovar as medidas que visam equilíbrio na economia

O rebaixamento do rating soberano do Brasil pela Fitch, divulgado ontem, coloca ainda mais pressão pela necessidade de ajustes fiscais a serem realizados no curto prazo.
Conforme a agência de classificação de risco - e ressaltada pelo diretor-executivo da Fitch no Brasil, Rafael Guedes logo após o anúncio de diminuição da nota de BBB para BBB- (um patamar acima do grau especulativo) -, a questão política ganhou mais visibilidade na revisão. Isto porque o governo federal tem dificuldades para aprovar as medidas que visam o equilíbrio macroeconômico e fiscal no Congresso Nacional.
"Crescimento baixo que só deve voltar a ter força em 2017, deterioração da situação fiscal e desafios políticos são as fraquezas do Brasil", explicou a empresários, ao término do Seminário Brasil 2016, realizado pela Câmara Americana de Comércio (Amcham), ontem.
Segundo ele, a "má notícia" do rebaixamento é que a perspectiva da nota BBB- é negativa, o que significa que em até 18 meses, "se nada for feito" com relação aos ajustes fiscais, o Brasil pode perder o grau de investimento.
Desta forma, seria a segunda agência a tirar o selo de bom pagador do Brasil. Em setembro, a Standard &Poor‘s reduziu o rating brasileiro para BB+, com perspectiva negativa, o que além de colocar o País no grau especulativo, sinaliza que podem ocorrer mais rebaixamentos no curto prazo.
"O relógio começa a contar a partir de hoje. Nós [Fitch] indicamos que a perspectiva de rebaixamento é maior do que 50% nos próximos 18 meses. E se perder o Brasil perder o selo de bom pagador deixa de participar de plano de investimentos para portfólios internacionais", lembra Guedes.
Repercussão
Um dos maiores problemas do rebaixamento da nota do Brasil, segundo o professor Patrick Behr, da Fundação Getulio Vargas (FGV), é o aumento do risco de se investir no País, que inicia um ciclo vicioso prejudicial para a dívida pública. "Com um maior risco, é preciso aumentar os prêmios (juros) pagos pelos títulos do Tesouro. Pagando mais juros, a dívida pública cresce, o que aumenta o risco de um novo rebaixamento, e assim por diante", explicou.
Behr avalia também que a recuperação do País passa pela resolução da crise política, principalmente para a aprovação das medidas do ajuste fiscal, e pela retomada da confiança dos investidores.
De acordo com o presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), Manuel Enriquez Garcia, a incerteza gerada pelo ambiente político e econômico emperra o desenvolvimento do País. "As pessoas deixam de tomar decisões, ficam aguardando, e isso agrava a crise", observou. Ele também aponta a resolução do impasse político como o principal ponto para que o Brasil "volte a andar".
Na avaliação do diretor executivo da Fitch, um fato positivo é que o governo demonstrou que também quer fazer ajustes do lado das despesas e, não somente na receita. Porém, como Behr, ele comenta que a trajetória do endividamento público é preocupante.
"Os analistas da agência vão olhar se há capacidade do governo de tomar medidas para enfrentar o fraco crescimento econômico e reverter a situação fiscal. Neste ano, estamos falando em déficit nominal de 9%, o que é negativo para a trajetória da dívida. Se a situação política continuar, os analistas podem levar o rating para avaliação novamente [o que sinalizada novo rebaixamento]", afirmou.
Ano que vem
Mais cedo, antes do anúncio da Fitch em Nova York - ao que parece que pegou o diretor executivo um pouco de surpresa -, questionado pelo DCI se 2016 será também um ano incertezas tal como está sendo este ano, Guedes comentou que a Fitch avalia o rating soberano no cenário a médio longo prazo.
"Não avaliamos como será 2016, 2017, mas se o governo vai atacar os problemas de crescimento econômico e fiscal. Mesmo que 2016 seja um ano difícil, isso não necessariamente levaria a mudar o rating. A questão não é como será o ano que vem ou o resto de 2015, mas sim a trajetória para resolver os problemas nos próximos anos", disse.

Fonte: DCI