Bolsa

Além de crise, empresas têm desafio de gerar ações de sustentabilidade

07/10/2015

Investidores estão considerando responsabilidade social e ambiental em suas análises de risco; apenas 20% das companhias do País têm metas efetivas de redução de emissão de carbono

Além de enfrentar a crise, as empresas brasileiras terão mais um desafio pela frente. Segundo especialistas, ações de sustentabilidade social e ambiental estão sendo cada vez mais consideradas nas decisões de investidores.
Começa a haver entre eles um consenso de que as agressões ao meio ambiente e a populações podem se traduzir em alto risco no futuro.
Segundo um levantamento da Carbon Disclosure Project (CDP), uma organização internacional sem fins lucrativos, existe atualmente no Brasil cerca de 74 compradores públicos e corporativos que já demandam informações sobre emissão de carbono e de gestão da água de seus fornecedores.
"Isso mostra que as ações de sustentabilidade são imperativas para se fazer negócios e estão integradas na estratégia das empresas", disse Juliana Lopes, diretora da CDP para a América Latina, durante um debate ocorrido ontem na BM&FBovespa. O evento foi promovido pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) e pela The European Federation of Financial Analysts Societies (EFFA).
A representante da CDP informou ainda que 62% das 100 empresas nacionais analisadas pela organização neste ano, reportaram metas de redução de emissão de carbono. "No ano passado, essa proporção era de 53%. Apesar disso, somente 20% das empresas brasileiras apresentam metas absolutas de redução. A maioria delas possuem metas relativas", afirmou Juliana Lopes, explicando que a sondagem levou em conta empresas que possuem, hoje, cerca de 80% da capitalização de mercado.
Tendência
Devido à tendência de descarbonização da economia, a representante do CDP recomenda que as empresas nacionais busquem metas "mais ambiciosas", incorporando em sua gestão metas de mitigação de danos ao meio ambiente e de contabilidade de emissão de carbono, por exemplo. "É crescente a atenção dos investidores para esses pontos", diz.
Apesar disso, já há um movimentos de empresas na direção de uma economia sustentável. Segundo Juliana Lopes, um grupo de 304 investidores globais, com a presença de 12 brasileiros, se reuniu em uma iniciativa para acelerar a inserção das empresas na economia sustentável. Além disso, um outro grupo de investidores europeus anunciou em setembro que vai reduzir a pegada de carbono em US$ 100 bilhões dos seus investimentos. O conjunto de investidores unirá esforços com a Iniciativa Financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep FI).
O grupo, batizado de Coalizão para Descarbonização de Portfólios (PDC, na sigla em inglês), será formado pelo fundo de pensão sueco AP4, pela empresa de gestão de ativos Amundi e pelo Carbon Disclosure Project (CDP).
Riscos
Ao discorrer sobre a redução de risco que as ações sustentáveis podem trazer aos investidores, a superintendente de sustentabilidade do Banco Itaú, Denise Hills, recorreu a uma conversa que teve com um administrador de um fundo de investimento da Britch Petroleum (BP), logo depois da crise de 2010, quando a empresa foi responsável por um derrame de petróleo no Golfo do México. "Naquela conversa, ele me disse a seguinte frase: ‘Minha maior dificuldade, após cinco dias da queda das ações, não foi informar ao investidor o quanto o papel havia caído, nem o que tinha acontecido com o valor da carteira dele. Mas foi explicar porque raios eu chamei aquele investimento de conservador", contou Denise, ressaltando que, cada vez mais, analistas vão precisar levar em conta as práticas sustentáveis das empresas para garantir maior retorno. A presidente Dilma Rousseff afirmou no final de setembro, durante a Cúpula da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, que o Brasil tem a meta de reduzir em 43% a emissão de gases do efeito estufa até 2030. O ano-base, segundo ela, é 2005. Até 2025, a redução deve ser de 37%. Esta é a proposta que o Brasil deve levar para a cúpula do clima de Paris, a COP 21, em dezembro.

Fonte: DCI