Bolsa

Novas ofertas de ações podem ser adiadas para o próximo ano

24/09/2015

Cenário conturbado. Mercado de Capitais brasileiro pode ter em 2015 seu pior ano de captação de recursos desde a eclosão da crise mundial de 2008, quando emitiu R$ 98,1 bilhões em títulos

As três ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) - BR Distribuidora, Caixa Seguridade e IRB Brasil Resseguros - antes esperadas para ocorrer neste ano, agora, devido às incertezas políticas e econômicas, podem ser adiadas para 2016.
Na avaliação de analistas consultados pelo DCI, não há mais clima para IPOs no mercado brasileiro no atual exercício. "Não é um momento muito favorável para IPOs no Brasil, se alguma dessas ofertas viesse ao mercado haveria o risco de vender ativos muito bons por um preço muito descontado. É praticamente certo que não veremos mais IPOs neste ano", apontou o analista da corretora Coinvalores Felipe Silveira.
Na mesma linha de argumentação, o analista da Gradual Investimentos Gesley Henrique Florentino, acredita que essas ofertas possam ocorrer com maior tranquilidade em 2016. "Não dá para precificar nada no momento, talvez no próximo ano, se a crise política estiver mais branda, essas operações venham a mercado", afirma.
Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ainda constam os pedidos de análise da IRB Brasil Resseguros e da Caixa Seguridade, mas ninguém do mercado acredita na realização dessas ofertas iniciais de ações no quarto trimestre, após a "janela" do mês de setembro. "O mercado não está nem um pouco interessante para IPOs, isso exigiria um prêmio de risco [desconto no preço] bastante alto", ressaltou Florentino.
No final do último mês de agosto, a diretoria da Petrobras também já havia manifestado a intenção de postergar a oferta de ações da BR Distribuidora e que "a realização da mesma dependerá de condições favoráveis dos mercados de capitais nacional e internacional".
Mas as condições de mercado nunca estiveram tão ruins como no atual mês de setembro. Silveira, por exemplo, lembrou que a perda do grau de investimento do Brasil (nota de bom pagador) concedida pela agência internacional de classificação de risco Standard & Poor‘s (S&P) foi só mais um fator de incertezas sobre a economia.
Ontem, a cotação do dólar comercial bateu novo recorde em 21 anos de história do real. A moeda americana subiu 2,28% e fechou a R$ 4,146 no balcão, apesar de quatro intervenções do Banco Central com a realização de leilões de linha (venda de moeda aos bancos com compromisso de recompra) e leilões de swaps cambiais (troca de taxa de juros pela variação do dólar), que são derivativos equivalentes a venda da moeda americana no mercado futuro.
"O mercado de capitais como um todo está ruim. As companhias só estão emitindo debêntures por necessidade. Na realidade, as empresas estão enxugando investimentos", diz.
A julgar pelos números divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a captação total de recursos por meio da emissão de títulos de renda fixa (bônus, debêntures e notas promissórias) ou variável (ações) caminha para o pior resultado desde a eclosão da crise mundial de 2008, quando foram emitidos R$ 98,1 bilhões.
Mas Florentino, da Gradual, vê que se persistir o patamar elevado de juros na economia brasileira em 2016, algumas grandes companhias listadas na Bolsa de Valores talvez possam realizar ofertas de aumento de capital, os chamados follow-ons.
"O custo para financiar está muito alto, talvez fique interessante fazer um follow-on e dividir o risco com outros investidores, mas isso só é possível se o preço das ações não estiver muito baixo. Para as siderúrgicas que viram uma desvalorização de cerca de 70% em seus papéis, não seria muito interessante", comparou.
Panorama do mercado
Em documento publicado ontem pela Anbima, Vivian Corradin, da Gerência de Estudos Econômicos, disse que as perspectivas para o segmento de ações também não são promissoras no curto e médio prazos. "Já que algumas operações, atualmente em análise, têm sido postergadas sucessivamente", afirmou no Panorama.
Ela também avalia que o cenário é pouco favorável para captações internacionais, e as perspectivas de recuperação dos volumes de captações internacionais para níveis próximos aos observados nos últimos anos ficam ainda mais distantes. "Sendo esperado que as companhias direcionem seu foco para a obtenção de recursos no mercado local, a despeito dos níveis elevados das taxas de juros domésticas. Este movimento é particularmente potencializado pela utilização dos ativos que contam com benefícios tributários, como as debêntures de infraestrutura", relatou Vivian Corradin, no Panorama divulgado ontem.

Fonte: DCI