Bolsa

Corretoras reinventam seus negócios para sobreviver na baixa do Ibovespa

17/09/2015

Pequenas instituições financeiras independentes de bancos tiveram que cortar custos e investir em plataformas de renda fixa e atividades de administração e gestão de fundos de investimentos

A crise do mercado de intermediação de ações no Brasil desde a baixa de 18,1% do Ibovespa em 2011 está levando às corretoras de valores independentes a diversificarem seus negócios para sobreviverem, sendo o principal caminho a distribuição de renda fixa.
Nos últimos 4 anos, o número de corretoras independentes - que não são representantes dos grandes bancos locais e de instituições estrangeiras - encolheu de 66 para 60 num processo de consolidação e até uma casa tradicional de 87 anos, a Souza Barros teve que fechar suas portas após dois exercícios com prejuízos.
Nesse período de crise, o volume médio negociado em ações na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) caiu do patamar de R$ 8 bilhões por dia para R$ 6 bilhões por dia, e o número de clientes ativos (pessoas físicas) diminuiu pela metade.
Na avaliação do analista da Wintrade, Filipe Villegas, o segmento de renda variável (ações) "espanta" o investidor pessoa física desde 2010. "A realidade é que o mercado de ações não está muito bom há bastante tempo", constata.
Em linha semelhante, Raimundo Magliano Neto, diretor da corretora Magliano, lembra que no período entre 2002 e 2008, essas instituições focaram seus esforços no boom de IPOs [ofertas primárias de ações]. "No boom de IPOs, o investidor ganhava dinheiro em qualquer oferta, hoje essa realidade mudou. É preciso fazer uma seleção [de papéis] muito minuciosa para preservar o capital", disse.
Segundo Magliano, passados esses anos dourados do segmento de renda variável, as corretoras de valores tiveram que se reorganizar. "Tivemos que cortar custos e diversificar os negócios", disse.
Nesse processo de migração, Magliano conta que as corretoras tiveram que investir em plataformas de renda fixa e passar a distribuir produtos como certificados de depósito bancário (CDBs), letras de crédito imobiliário (LCIs), letras de crédito do agronegócio (LCAs), letras de câmbio (LCs) e títulos públicos do Tesouro.
"Hoje um terço da minha receita vem da renda fixa, um terço da administração e gestão de fundos de investimentos e apenas um terço do mercado de ações", exemplificou.
Magliano também contou que sua corretora teve que dedicar-se a um determinado público. "Estamos atendendo somente investidores qualificados. Tem corretora que só irá atender o varejo, outras só vão fazer home broker [operações pela Internet]. Não dá para fazer tudo. As corretoras terão que especializar-se em nichos de mercado", apontou.
Nessa nova fase, o diretor disse que diminuiu custos com tecnologia. "Estamos no modelo PN [participante de negociação da BM&FBovespa] que tem menores custos, e outra corretora plena [PNP], a Plural, nos atende em tecnologia", diz.
Magliano Neto aponta que o processo de consolidação do mercado ainda está em curso. "Hoje é um mercado muito pequeno. Ainda há espaço para fusões e aquisições", aponta.
Outra corretora do varejo de ações que passou por um processo de transformação foi a Easynvest. "A renda fixa já representa mais de 50% das receitas. Há um ano, tínhamos R$ 300 milhões em custódia, a gente cresceu e agora são R$ 2 bilhões", diz o sócio-diretor da Easynvest, Marcio Cardoso.
A diversificação foi feita por meio de investimentos em tecnologia e marketing. "Se precisa estar atualizado e gastar apenas o essencial. É um processo que não termina", diz.
Cardoso aponta que no futuro haverá casas menores, mas com margens melhores. "Haverá corretoras pequenas mas que atendem bem como boutiques de investimentos. Hoje ainda tem muita corretora para o tamanho [menor] do mercado de ações", afirmou.
Para Villegas, da Wintrade, o que possibilitou a mudança nas atividades das corretoras foi o início do ciclo de alta da taxa Selic em abril de 2013 e a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). "A política monetária tornou as aplicações em renda fixa mais rentáveis", observou. Outro fator segundo o analista foi o avanço da educação financeira nas corretoras. "A maior parte dos cursos são gratuitos", diz.

Fonte: DCI