Bolsa

Com rebaixamento, recurso externo deve ficar mais escasso no Brasil

11/09/2015

Para especialistas, a nova realidade exigirá uma postura mais combatente do governo ao déficit orçamentário; medidas impopulares, como aumento de impostos também são esperadas


O Brasil vai precisar se acostumar com o menor ingresso de recursos de estrangeiros, após ter perdido o seu grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor‘s (S&P), na última quarta-feira.
Para especialistas, pelo fato de o País possuir baixa poupança interna, o ambiente para novos aportes se torna ainda mais preocupante.
Contudo, na avaliação de Ricardo Balistiero, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, as concessões em infraestrutura podem ser uma "luz no fim do túnel", se o Ministério da Fazenda adotar uma postura combativa ao déficit orçamentário.
"O corte da nota de crédito do Brasil não foi uma novidade. Isso já estava precificado pelo mercado. A principal novidade, a meu ver, foi a perspectiva negativa dada pela S&P. O viés de baixa foi pesado", diz Balistiero.
"O rebaixamento com perspectiva negativa cria um sinal de alerta para as outras agências de classificação de risco e para outros investidores institucionais, criando um efeito em cadeia. Muitos fundos de investimento, ao saberem do viés de baixa, se antecipam e saem do País. Além disso, apesar da Fitch ter dito [ontem] que não vai rebaixar a nota do Brasil, existe um monitoramento constante das contas públicas do País, que passam por um déficit bem difícil de reverter", acrescenta ele.
Balistiero afirma que muitos fundos já estão saindo do Brasil e explica que os investidores mais sólidos - que aplicam mais dinheiro - por regra, não podem permanecer em países que possuem grau especulativo. "Por isso, vamos precisar nos acostumar com menos recursos estrangeiros entrando no País."
Para não agravar ainda mais a sua situação, o Brasil precisa manter o grau de investimento em pelo menos duas das agências de classificação de risco: a Fitch Ratings e a Moody‘s.
Áreas produtivas
A saída de fundos de investimentos do Brasil pode prejudicar aportes em áreas produtivas da economia indiretamente, ressalta o professor do Instituto Mauá de Tecnologia. "Quando estes investimentos caem na Bolsa de Valores, ajudam a capitalizar as empresas brasileiras, dando saúde financeira a elas. Os grandes fundos de investimento também podem participar de projetos de infraestrutura", esclarece Balistiero, que está mais otimista com o pacote nacional de concessões.
"Se o [ministro da Fazenda, Joaquim] Levy emitir um sinal claro de que não vai tolerar o déficit público, os contratos de concessões podem ser beneficiados. Há espaço para atrair os estrangeiros para essa área. O Brasil possui muitos gargalos em infraestrutura e isso permite espaço para lucro. Ademais, os contratos de concessões mudaram durante o governo Dilma [Rousseff] e estão bem mais flexíveis", afirma.
Impopular
Medidas impopulares, como aumento de impostos e corte nas despesas governamentais, parecem ser mesmo o caminho para a recuperação da confiança no Brasil e dos investimentos estrangeiros. Para Celso Grisi, presidente do Instituto Fractal, após o corte da nota de crédito do País, "essas ações são indispensáveis para manter o grau de investimentos nas outras agências".
"Seria essencial haver um corte forte nas despesas governamentais para mostrar disposição do Executivo em formar um superávit primário robusto. É um bom momento para fazer uma reforma previdenciária, pensar em outras mudanças no sistema trabalhista, fazer cortes em ministérios. Um corte nas despesas contribuiria, inclusive, para reduzir a inflação e, consequentemente os juros. Com juros menores, é possível diminuir o endividamento público e melhorar a nossa reputação diante dos investidores internacionais".
Balistiero concorda que um dos caminhos é aumento de impostos, mas ressalta que, o governo "vai atacar onde não precisar do Congresso Nacional". "Tributos como o IPI [Imposto Sobre Produtos Industrializados] e a CIDE [Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico] o governo pode mexer. Mas em Imposto de Renda é mais difícil e terá muita ‘chiadeira‘", afirma.
Grisi avalia que a exportação é "a vertente mais próxima que se desenha para o crescimento", devido à desvalorização cambial, mas ressalta que o avanço no mercado externo é sempre demorado, levando de dois a três anos. Balistiero também destaca que o cenário internacional não é favorável.
"A demanda da China está se retraindo e da Europa também. Estamos vendendo somente para os Estados Unidos", afirma o professor.
Para Balistiero, recuperar o grau de investimento na S&P é um caminho mais longo. "Vale lembrar que desde a moratória de 1987, quando o então presidente José Sarney deixou de pagar a dívida externa, até termos uma nota de crédito [em 2008] passou-se muitos anos", rememora Balistiero, para mostrar que recuperar grau de investimento demanda tempo.
Ontem, a diretora-gerente de ratings soberanos da S&P, Lisa Schineller, reforçou que a proposta de Orçamento, contendo déficit primário em 2016 - de 0,5% do Produto Interno Bruto - enviada pelo governo ao Congresso há 11 dias, foi a peça-chave para a decisão da agência de rebaixar rating soberano do Brasil. Mas ressaltou que a perspectiva pode mudar para estável quando houver menos incertezas.


Fonte: DCI