Bolsa

Incerteza econômica e política eleva negociação com derivativo financeiro

11/08/2015

BM&FBovespa registra recorde de movimentação em contratos futuros de dólar e taxa de juros DI enquanto investidor estrangeiro vende suas ações para escapar dos riscos do mercado brasileiro


As incertezas econômicas e políticas no Brasil estão fomentando a proteção (hedge) no mercado de derivativos financeiros da BM&FBovespa. O volume em contratos futuros cresceu 20% de junho para julho e recordes diários foram superados na última semana.
Essa movimentação crescente foi motivada por uma série de acontecimentos recentes: a redução da meta fiscal das contas públicas de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) para 0,15% do PIB (22/7); a mudança na perspectiva de neutra para negativa do rating (nota) do Brasil pela agência de risco S&P (28/7); a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de sinalizar o fim do ciclo de alta dos juros (29/7); o agravamento da crise política (5/8); e a ata do Copom na última quinta-feira que lançou mais dúvidas sobre a elevação da taxa Selic.
"O investidor busca o mercado de derivativos para limitar suas perdas, ele tem medo de perder em momentos de crise. A incerteza também provoca a diminuição do volume de ativos na Bolsa de Valores", diz o sócio-diretor da corretora Geração Futuro, Eduardo Moreira.
Segundo o relatório de operações da BM&FBovespa, o número de contratos de taxa de depósito interfinanceiro (DI) cresceu 18,85% para 37,494 milhões em julho, ante 31,547 milhões em junho.
A BM&FBovespa também atingiu na última quinta-feira (6/8), a marca histórica de 89,632 mil negócios no contrato futuro de taxa média de DI de um dia (DI1). O recorde anterior era de 56.947 negócios, em 24 de julho último.
Em julho, o número de contratos de dólar futuro havia crescido 11,83% para 6,9 milhões, ante 6,176 milhões registrados em junho último.
Na semana passada, as preocupações com a moeda americana alcançaram os investidores pessoas físicas, o minicontrato futuro de dólar (WDO), negociado no segmento BM&F, obteve os recordes de 253.407 contratos negociados e 111.397 negócios. Os recordes anteriores eram de 236.669 contratos e 99.071 negócios, ambos em 28 de julho recente.
Na avaliação do sócio-diretor da Escola de Investimentos Leandro & Stormer, Alexandre Wolwacz, o momento atual de mercado com maior volatilidade favorece a utilização de derivativos financeiros. "As pessoas estão procurando mais esses instrumentos porque estão inseguras sobre a economia e a política. Notamos desde junho e julho e até agosto um crescimento nas operações com derivativos de dólar, índices (Ibovespa), opções e algumas commodities", disse.
De fato, a negociação com contratos futuros de Ibovespa avançaram 11,47% em julho para 1,341 milhão, ante 1,203 milhão de contratos registrados no mês de junho.
No segmento de commodities também houve aumento de 12,45% dos negócios com milho em julho. E as pessoas físicas seguem na ponta de contratos de compra em boi gordo no mês de agosto com 64,74% das posições. "A incerteza na economia reflete mais no segmento de derivativos de juros, onde o custo operacional é menor que o da corretagem em Bolsa. Mas quando o mercado está direcional (com uma tendência definida), a negociação com ações é melhor", afirma Alexandre Wolwacz.
Ordens automáticas
Para o professor de finanças Alexandre Cabral, a volatilidade está tão expressiva nas últimas semanas que pode estar disparando ordens automáticas (stop) dos operadores. "Muita gente está trabalhando estopada [com ordens automáticas de stop] para evitar prejuízos. Houve muita aposta no discurso do Copom e o mercado foi surpreendido antes e depois [com a decisão sobre os juros e com a ata]", contou o professor de finanças.
Cabral também acredita que muitos gestores de fundos de investimentos em ações estão indo para o mercado de derivativos para fazer hedge (proteção) no atual ambiente ruim para a Bolsa de Valores. "No dólar, o pessoal quer a variação cambial. Mas se a crise política evoluir para um processo de impeachment da Dilma, talvez vá querer dólar físico".

Fonte: DCI