Bolsa

Baixo movimento na Bolsa é cenário propício para fechamento de capital

30/06/2015

Alta da taxa básica de juros (Selic) atrai recursos para os títulos públicos e reduz atratividade dos papéis de algumas empresas, que têm mais dificuldade de entregar o retorno aos acionistas

A redução do volume de negócios na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), alinhada ao cenário macroeconômico atual, oferece um ambiente propício para algumas empresas fecharem capital, avaliam especialistas ouvidos pelo DCI.
Na quarta-feira passada, o Daycoval anunciou a intenção de realizar uma oferta pública de aquisição (OPA) por suas ações para posteriormente cancelar seu registro na bolsa - à época, os papéis do banco eram negociados a R$ 7,64, valor que saltou para R$ 9,16 no dia seguinte ao comunicado, uma alta de 19,9%.
Segundo Marcelo Cambria, professor de Finanças da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), com a deterioração do cenário macro econômico, algumas companhias listadas na bolsa, principalmente as menores, enfrentam uma redução do volume de negócios diários e uma depreciação do valor de suas ações.
"Como já trabalhou os recursos do IPO [oferta pública de ações, em inglês], já expandiu a empresa com esse dinheiro, o controlador aproveita esse preço mais barato e uma expectativa ainda boa de lucro para tirar os papéis do mercado", analisou.
Cambria afirmou que o País vive em um momento de pouco incentivo à produção e de alta de juros - o que valoriza os títulos públicos e atrai recursos para essa aplicação, considerada mais segura e remuneradas com base na taxa básica de juros (Selic), que está em 13,75%.
"Isso estimula um gap [diferença] entre a margem que o conselho [de acionistas] quer e o que controladores oferecem", avaliou o professor.
No fato relevante da semana passada, o Daycoval informou que optou pela OPA por causa da baixa liquidez de seus papéis no mercado acionário, "não sendo considerados expressivos o volume de negócios e o valor pelo qual as ações são negociadas".
O banco propôs aos acionistas minoritários pagar R$ 10 por papel, o que representava, na época, um prêmio de 29,2% a 32,6% sobre o valor da ação - mais que o dobro da Selic.
Vantagens
Quando uma ação tem baixa liquidez - ou seja, pouca negociação - seu preço costuma cair. Os especialistas ouvidos pelo DCI afirmaram que, além de resguardarem o valor de mercado da companhia, a OPA também pode ajudar a empresa a reduzir os gastos.
"Os custos para se manter o capital aberto no Brasil são bastante significativos", explicou Roberto Vertamatti, diretor de economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).
"Hoje, uma empresa média ou pequena precisa ter a mesma estrutura que uma grande empresa para se manter listada em bolsa", completou.
Em relatório, a agência de classificação de riscos de crédito Fitch Ratings afirmou que a o fechamento de capital do Daycoval não deve afetar os ratings do banco.
"A decisão de recompra de ações se baseou na avaliação da administração e dos acionistas controladores de que a baixa liquidez de suas ações em livre negociação não mais justifica a manutenção do banco como entidade de capital aberto, o que se torna muito caro, em função das exigências regulatórias em termos de relatórios, dentre outras", apontou a Fitch.
Segundo Vertamatti, a operação também dá mais flexibilidade à companhia, que não precisa mais prestar contas a um conselho de acionistas e passa a ter menos demandas regulatórias para atender - no caso de bancos, a empresa passa a ser regulada apenas pelo Banco Central, e deixa de ter que passar pelo crivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
"Sem dúvida, a empresa tem mais flexibilidade. Principalmente, no caso de uma empresa média acaba sendo interessante esse fechamento de capital", observou executivo.
Quando fechou o capital da Rede (então, Redecard), em 2012, o Itaú informou que, além da redução de conflito de interesses, a OPA visava, justamente, o aumento da competitividade com a Cielo, sua principal concorrente no mercado de adquirência.
Os especialistas disseram ainda que, com o fechamento de capital, fica mais fácil para a empresa realizar uma operação de fusão ou aquisição.
"A empresa que está comprando não precisa lidar com a pressão acionária [o anúncio de uma aquisição, normalmente faz o preço das ações subirem]", avaliou Vermatti. "Os valores também são mais facilmente negociáveis entre as partes", concluiu.
Desdobramentos
Para os especialistas, o movimento do Daycoval não necessariamente será uma tendência, mas, pelo cenário atual, é mais provável que novas OPAs aconteçam no médio prazo, do que novos IPOs.

Fonte: DCI