Bolsa

Até 30% das empresas avaliadas pela Fitch podem ter as notas rebaixadas

16/04/2015

Agência internacional de risco de crédito vai aguardar os balanços corporativos do primeiro e do segundo trimestre para confirmar o cenário de retração e de baixo crescimento dos resultados

A agência internacional de classificação de risco de crédito Fitch Ratings registra perspectiva negativa em 30% dos mais de 500 ratings (notas) corporativos acompanhados no Brasil. Ou seja, essas companhias podem ser rebaixadas e pagarão juros mais altos.
"2015 será um ano duro para a maioria das empresas brasileiras. Talvez alguns achem que estamos pessimistas, mas vamos esperar os balanços do primeiro trimestre e depois os balanços do segundo trimestre para confirmar isso", apontou o Head (diretor responsável) da área de finanças corporativas da agência Fitch Ratings no Brasil, Ricardo Carvalho.
O diretor apontou que o Brasil poderá registrar em 2015 um recorde de rebaixamentos de notas corporativas dos últimos 10 anos. Em 12 meses de 2014, a Fitch registrou 25 dowgrades [rebaixamentos}, mas desde o início de janeiro até 15 de abril último, a agência já aplicou outros 25 dowgrades.
"Os efeitos da Operação Lava Jato nos setores [petróleo e infraestrutura] vão chegar nas estatísticas. O ambiente de crédito está mais difícil, o crédito está mais seletivo, mais caro e de prazo mais curto. Esses fatores vão chegar nos balanços", afirma.
Na mesma linha, o vice-presidente de finanças e relações com investidores (RI) da Cosan, Marcelo Martins, disse ontem aos participantes do Fórum Corporates que o escândalo da Operação Lava-Jato impacta não apenas a imagem do País, mas também indiretamente aumenta o risco País, indicador que é usado como spread (prêmio) para operações de financiamento das companhias.
"O que é positivo para o médio e o longo prazo é que se abre espaço para que grupos internacionais [empreiteiras] possam entrar no fechado mercado brasileiro", disse Marcelo Martins aos participantes do fórum em São Paulo.
Mas na visão de Carvalho não faltam motivos para descrever a difícil realidade das empresas brasileiras. "Inflação caminhando para dois dígitos, pressão de custos, elevação do câmbio, redução da capacidade de endividamento das famílias e desemprego em alta", diz o diretor-responsável da Fitch.
Por outro ângulo, o diretor sênior de energia da Fitch, Mauro Storino, apontou que o "fantasma do racionamento" não assusta mais em 2015. "O volume de chuvas até o momento está acima da média histórica, essa é a notícia boa, mas os reservatórios ainda estão mais baixos que 2014, as notícias ruins para o setor de energia são o crescimento ruim, a queda do consumo industrial e o aumento dos preços de energia, e todo mundo vai entrar em 2016 com vela para São Pedro para chover".
Storino explicou que o problema maior está nas empresas geradoras, que seguem acumulando prejuízos bilionários. "As geradoras tem que comprar energia no mercado spot (à vista) para entregar aos clientes", disse o diretor referindo-se aos custos que podem alcançar R$ 30 bilhões.
Mas ao mesmo tempo, Storino diz que o segmento de transmissão segue com classificação de risco muito boa: "é renda fixa". Sobre as empresas eólicas e térmicas, disse que essas companhias nunca imaginaram que seriam "tão despachadas", em outras palavras, que teriam receitas com produção adicional de energia.
No caso das distribuidoras, o diretor sênior exibiu preocupações com um possível crescimento da inadimplência dos consumidores e também com o aumento dos casos de furtos de energia (gatos na rede).
Outro setor de preocupação da agência é o de açúcar e etanol, que enfrentou dois "defaults" (calotes) anteriores, da Arauco e da Virgolino de Oliveira. "Esses setores [açúcar e etanol] vão continuar pressionados. No caso do etanol houve mudanças positivas, aumento do anidro na gasolina, de 25% para 27%, volta da Cide e da Cofins na gasolina, mas o aumento das receitas não é nada suficiente para aliviar as pressões financeiras", diz o analista sênior, Claudio Miori.
Expectativa negativa

FONTE: DCI