Bolsa

Investidor retira recursos de fundos para pagar dívidas com juros pesados

09/04/2015

Mercado de capitais registra poucas operações com renda fixa no primeiro trimestre deste ano e aguarda notícias melhores da economia antes de preparar novas ofertas para o segundo semestre

A exemplo dos saques expressivos (R$ 11,4 bilhões) ocorridos em cadernetas de poupança, os fundos de investimentos registraram resgate líquido de R$ 9,38 bilhões no último mês de março.
"É difícil mapear para onde foram os recursos, mas temos evidências que foram principalmente para pagamento de dívidas tanto por empresas como por pessoas físicas. Estamos vendo o movimento de custos mais elevados [com juros] e com a inflação", respondeu a diretora da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Luciane Ribeiro.
De fato, pesquisa recente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio) já havia mostrado que o percentual de famílias endividadas retrocedeu para 38,9% ou 12 pontos percentuais em relação aos 50,9% do mesmo período do ano passado.
Luciane lembrou, por exemplo, que até fevereiro último, os clientes empresariais (corporate) haviam registrado resgate líquido de R$ 10,6 bilhões dos fundos de investimentos. E que esse movimento também ocorre com pessoas físicas.
"Parte disso é pagamento de dívidas e de contas. Isso também aconteceu com as empresas, os juros estão subindo e logicamente é mais barato liquidar suas dívidas do que continuar rolando essas dívidas com custos superiores. É um processo natural, as empresas no início do ano tem uma série de impostos e vencimentos de dívidas", argumentou a diretora após apresentar ontem, o boletim mensal de fundos da Anbima.
Os dados da entidade mostram que o resgate líquido de fundos ficou em R$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre do ano, o pior resultado da série histórica iniciada em 2002.
Entre as carteiras mais afetadas, os multimercados tiveram resgate R$ 18,5 bilhões no ano até março, e saída de R$ 39,3 bilhões nos últimos 12 meses. As carteiras de ações também apresentaram saída líquida de R$ 2,4 bilhões em março, de R$ 5,1 bilhões no 1º trimestre, e retirada de R$ 15,4 bilhões nos últimos doze meses.
Mas por outro ângulo, os investidores resgataram suas posições realizando lucros. "Os fundos multimercados macro tiveram rentabilidade de 8,52% no primeiro trimestre. E entre as carteiras de ações, apenas as de small caps tiveram perdas de 3,82%, as demais categorias tiveram ganhos até março", afirmou Luciane Ribeiro. No mercado de capitais, as emissões de dívida corporativa seguem em ritmo de desaceleração, segundo o boletim da entidade. "As empresas aguardam algum evento que traga otimismo. Todo mundo dependendo da Petrobras para destravar o mercado (...). Há preocupação com o risco de perder o investment grade [grau de investimento] do Brasil", respondeu a diretora da Anbima, Carolina Lacerda.
A queda na emissão de dívidas corporativas foi de 60,7% no primeiro trimestre para apenas R$ 10,1 bilhões, o pior resultado desde 2009, no auge da crise econômica mundial.
"Há muita gente na fila para fazer operações, mas hoje não tem movimentação para fazer ofertas até setembro. (...) Vamos ver notas promissórias. Em renda variável [ações], só com ativos muito fortes para acessar o mercado", apontou.

Fonte: DCI