Bolsa

Estrangeiro investe na Bolsa e aguarda ajuste

24/02/2015

Discurso do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em encontros internacionais, agrada maioria dos investidores, mas volume maior em aportes só virá diante do cumprimento das metas fiscais

O investidor estrangeiro só aportará maior volume de recursos na Bolsa de Valores brasileira a partir dos meses de agosto e setembro de 2015, quando constatar que o ajuste fiscal prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi realizado de fato.
Um volume positivo, mas ainda considerado pequeno, começou a entrar em papéis de empresas brasileiras em fevereiro. Até o último dia 19, segundo o boletim da BM&FBovespa divulgado ontem, a entrada líquida originada de clientes estrangeiros estava positiva em R$ 2,6 bilhões, resultado da diferença entre R$ 48,661 bilhões em compras e R$ 46,044 bilhões em vendas de ações.
"É uma questão de confiança. O investidor estrangeiro recebeu bem as declarações do ministro no exterior, mas vão olhar os primeiros números lá em agosto e setembro deste ano e verificar se as medidas de ajuste fiscal estão surtindo efeito", aponta o diretor da Escola de Investimentos Leandro & Stormer, Alexandre Wolwacz.
Em 2014, os estrangeiros aportaram R$ 22,565 bilhões (líquidos) em ações na Bolsa brasileira, mesmo com a estagnação da atividade econômica em curso. "As medidas de ajuste fiscal anunciadas por Levy são impopulares, mas agradam os investidores", diz o diretor.
Ele contou que os estrangeiros procuram por empresas com níveis de governança corporativa mais altos (Novo Mercado) e com balanços mais sólidos. "O caso da Petrobras deixou muitos investidores com medo", considerou.
Ontem na Bolsa, o papel com direito a voto (ON) da estatal de petróleo recuou 1,68%, enquanto o preferencial (PN) registrou queda de 1,86% acompanhando a queda de 2,67% do petróleo no exterior para US$ 49,45 o barril.
Alheios à Petrobras, os papéis mais procurados pelos "gringos" nesse movimento recente de entrada estão empresas brasileiras com fluxo de caixa em dólar como a Embraer, Fibria e Suzano Papel e Celulose, ou seja, papéis voltados ao mercado exportador.
Segundo o analista da corretora Rico, Roberto Indech, a valorização do dólar em relação ao real nesse ano de 2015 também deixou "alguns bons ativos da Bolsa, muito baratos". Ontem, o dólar à vista no mercado de balcão avançou a R$ 2,879 depois de ter alcançado a máxima de R$ 2,90 após novas declarações do ministro Joaquim Levy, ditas ontem a empresários, em São Paulo.
"Nesse momento há um voto de confiança ao ministro da Fazenda, mas as medidas de ajuste fiscal ainda precisam surtir os efeitos", considera Indech, da corretora Rico.
Na prática, o ministro da Fazenda assumiu a responsabilidade de negociar com o Congresso Nacional para que as medidas do ajuste fiscal sejam aprovadas sem prejudicar o cumprimento da meta de superávit primário de 1,2%.
Wolwacz também ressalta que a correlação Bolsa e dólar mudou em relação ao ano passado. "Antes, o dólar subia e a Bolsa recuava. Agora, cada vez mais aparece o contrário, o dólar sobe e a bolsa vai subindo".
Ontem, o principal índice de ações da bolsa brasileira (o Ibovespa) subiu 0,08% para os 51.280,64 pontos. Em fevereiro, mês de dólar em alta, o Ibovespa já subiu 9,32%.
A moeda americana apresenta valorização de 30,5% em relação ao real, em comparação com junho do ano passado quando esteve em R$ 2,205. "São investidores globais que operam no mercado brasileiro. Há muitos fundos internacionais que investem em mercados emergentes como o Brasil", diz Indech, da Rico.
No entanto, ele considera o risco de investidores internacionais de renda fixa deixarem o Brasil quando os juros nos Estados Unidos subirem no segundo semestre de 2015. "Pode haver uma migração para os EUA, uma saída forte dos emergentes para taxas de juros, mas ainda não é possível saber, quando e como".
Por outro ângulo, Indech diz que o aumento da liquidez na Europa e no Japão, por causa de programas semelhantes ao quantitative easy americano (afrouxamento monetário ou emissão facilitada em quantidade expressiva de moeda) pode atrair novos recursos para países emergentes. "Sem dúvida, haverá uma injeção de liquidez", considerou.

Fonte : DCI