Bolsa

Mercado de capitais terá ciclo ruim e enfrentará oscilações no curto prazo

05/02/2015

Executivos e conselheiros do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa observam retrocesso em volatilidade na Bolsa de Valores e apontam novos desafios para companhias abertas no Brasil

Diante do atual cenário de volatilidade na Bolsa de Valores e da falta de confiança dos investidores e dos empresários, o mercado de capitais tende a apresentar um ciclo "ruim" de captações e de financiamentos em 2015.
"Vamos viver um ciclo de retração dos investimentos muito forte, um ajuste. Houve uma desarticulação muito grande de política macroeconômica", disse ontem, o ex-presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), José Guimarães Monforte.
"Até remontar essa confiança e cuidar do orçamento fiscal do governo, vai levar algum tempo. A atividade de financiamento por parte dos mercados precisa de nortes [direções] e de horizontes mais claros para financiar o desenvolvimento. Hoje é difícil fazer isso", completou Monforte, também conselheiro de empresas abertas.
Na visão do ex-presidente da Bolsa de Valores de São Paulo, e ex-presidente do IBGC, Gilberto Mifano, os escândalos recentes no Brasil trouxeram reflexos ao mercado financeiro e de capitais.
"É um estrago enorme, a nossa credibilidade não está nem arranhada, está destruída. O ânimo geral está abatido, e os investidores de forma geral estão machucados. Consertar tudo isso não é fácil", afirma Gilberto Mifano.
Sem citar nomes conhecidos de companhias envolvidas em escândalos recentes, Mifano diz que essa cadeia de empresas possui ramificações em vários setores da economia. "É um caso sério. Não quero ser catastrófico, mas temos o risco de um efeito dominó, não estamos falando só de óleo e gás", respondeu o executivo.
Por um ângulo mais positivo, Mifano diz que a nossa sociedade tem a chance de consertar seus erros. "Mas não precisamos pagar tão caro para aprender essa lição", diz.
"Em alguns meios de investidores internacionais, viramos motivo de piada lá fora, e isso é muito ruim", completou.
O ex-presidente do IBGC também diz que o sistema financeiro ainda pode dar sua contribuição, e que essa contribuição pode ser melhor quando a macroeconomia estiver melhor, mas não é o caso hoje. "Devemos exigir que os bancos contribuam financiando as empresas e correndo riscos justos, mas as condições para isso não são propícias".
Sobre o cenário para o mercado de capitais, ele lembrou que os investidores vivem de expectativas futuras. "2015 é um ano de arrumar a casa, portanto com taxas de juros mais altas, restrições ao volume de crédito e dificuldade para planejar o longo prazo".
Sobre a volatilidade recente no mercado de capitais, Mifano lembrou que nas décadas de 80 e 90 do século passado, qualquer fato político refletia violentamente no mercado e na Bolsa de Valores com volatilidade e queda de interesse.
"Hoje há um novo retrocesso, na minha opinião, pontual. A volatilidade está reinstalada, não por fatos econômicos, mas por questões políticas e medos reais ou irreais de escolhas políticas. E isso é ruim", admite.
A atual presidente do IBGC, Sandra Guerra, também ressaltou que o mercado de capitais está passando por um período de muita volatilidade.
"Estamos vendo oscilações muito bruscas no mercado de capitais. É importante o investidor olhar fatores de longo prazo. Se uma ação reage muito rapidamente, nem sempre indica o caminho mais correto. O investidor deve estar atento aos aspectos de governança que devem ser considerados e quais seriam os fatores necessários para que o mercado fique positivo", disse Sandra.
Entre as iniciativas atuais tomadas pelo IBGC, Sandra contou que a entidade que reúne conselheiros de administração e acionistas de companhias abertas e de grandes empresas fechadas e familiares irá preparar nas próximas semanas um documento sobre a governança em empresas de capital misto (públicas e privadas).
Contraponto crítico
O atual presidente da Associação de Investidores do Mercado de Capitais (Amec) e também ex-presidente do IBGC, Mauro Cunha, alerta que o mercado de capitais não está cumprindo sua função social, a de canalizar recursos ao setor produtivo. "O Novo Mercado ficou velho e não dá garantia que o investidor será bem tratado", alertou Cunha.

Fonte: DCI