Bolsa

Negócios de impacto social começam a atrair investidores

12/12/2014

Investimentos. Fundos buscam projetos bem estruturados de empresas criadas para atender de modo eficiente a população não amparada pelo Estado em áreas como educação e saúde

Há novos investidores dispostos a apostar em empresas de impacto social, que buscam soluções para problemas em áreas como saúde, educação e moradia e que se diferenciam das ONGs por terem fins lucrativos. Mas há também carência de bons projetos no Brasil.
O número de investidores com esse foco praticamente triplicou desde 2012, segundo o Mapa do Setor de Investimento de Impacto no Brasil, elaborado pela consultoria Eqom Partners em parceria com a investidora global LGT Venture e com a rede de apoio ao empreendedorismo Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande).
São 22 fundos de investimento, aceleradoras, family offices e outros interessados em aportar recursos em empresas que tenham soluções eficientes para a base da pirâmide - ou seja, para atender a população de baixa renda que o Estado e as ONGs não são capazes de amparar completamente.
Os negócios de impacto social são considerados um investimento de risco, já que a liquidez é baixa e o retorno só vem em longo prazo. Como a empreitada não é simples, o investidor prefere negócios já bem estruturados, capazes de atingir a escala exigida para atender um público extenso. Assim, empreendedores com projetos ainda na fase inicial têm dificuldade para atrair aportes, mesmo com dinheiro disponível no mercado. "Um dos principais desafios é ampliar os recursos para empresas que ainda estão desenvolvendo um modelo de negócios", diz André Degenszajn, secretário-geral do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), que reúne investidores sociais de diversos segmentos.
Embora as aceleradoras de negócios façam o meio de campo entre empreendedores e investidores, essa aproximação nem sempre resulta em aporte efetivo. Sócio do Projeto Vivenda, que realiza reformas de pouca complexidade a baixo custo para populações carentes, Fernando Assad conta que a empresa foi procurada por um fundo de investimento, mas não chegou a um acordo confortável para os dois lados (veja ao lado).
Aposta elevada
O caso da Vivenda ilustra também a dificuldade que ocorre na outra ponta: a do investidor que procura projetos de maior porte. "Hoje temos cerca de 20 investidores buscando negócios desse perfil, mas seriam investimentos a partir dos R$ 3 milhões de reais por tíquete", diz Renato Kiyama, coordenador da aceleradora de negócios sociais Artemisia. "A necessidade de capital das empresas iniciantes geralmente é de uma média de R$ 300 mil, um investimento que o investidor grande não estaria disposto a fazer pelos custos associados a esse tíquete pequeno. Existe dinheiro sim, mas para um determinado perfil de empresa." Segundo Kiyama, o capital disponível para investimentos no mercado ultrapassa a casa dos R$ 300 milhões.
Sócia e diretora da Eqom Partners, Tatiana Fonseca considera que as equipes de mentoria criadas por investidores e aceleradoras para desenvolver empreendedores são uma opção viável para tornar os negócios iniciantes mais atrativos. "Isso vai garantir o retorno do fundo de investimento de impacto. Hoje existe carência de seed money (capital semente) no País, de um capital de alto risco para começar a formar empreendedores. É o que acontece nos Estados Unidos, no Sillicon Valley, por exemplo", diz.
Especialistas também citam a falta de apoio governamental às empresas de impacto social. Para o colombiano Camilo Galvis, diretor-executivo da abc Foundation, grupo de apoio a negócios sociais que trabalha em toda a América Latina, a falta de estímulos por parte da gestão pública dificulta o amadurecimento do setor. "A legislação brasileira não fomenta os empreendedores sociais. Em muitos países existem incentivos dessa espécie", compara.
Em busca de incentivos
Na Inglaterra, as empresas de impacto social adotam o formato jurídico de interesse comunitário (community interest company, ou CICs), que permite participação acionária do governo. Já o Ministério do Desenvolvimento canadense criou uma Unidade de Negócios Sociais para apoiar os empreendedores que atuam com esse foco.
Degenszajn, do Gife, lista ações que poderiam aquecer esse mercado, como incentivos às aceleradoras, criação de linhas de crédito exclusivas para empresas do setor e ampliação de compras institucionais por parte de grandes atores econômicos. Ele cita como exemplo o Programa Vivenda. "Imagina se o ‘Minha Casa, Minha Vida‘ assina um contrato com eles? Esse tipo de coisa faria o mercado crescer muito", afirma. Uma força-tarefa articulada pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) reúne 20 companhias do ecossistema dos negócios sociais - entre elas o Gife e a Artemisia - e busca viabilizar ações nesse sentido.
Perspectiva de expansão
Apesar do cenário difícil para as empresas iniciantes, o mercado de investimento de impacto social segue em crescimento no Brasil. "Ainda é frágil, mas nunca esteve tão bom", resume Degenszaj, do Gife.
Kiyama, da Artemisia, conta que o número de empresas interessadas no processo de aceleração aumentou de 2013 para cá: de 19 para 23.
Novos atores continuam surgindo nesse cenário. Ligada à Yunus Social Business, organização criada pelo vencedor do Nobel da Paz Muhammad Yunus, a Yunus Negócios Sociais começou a operar no Brasil neste ano e já organiza ciclos de aceleração em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Para Rogério Oliveira, diretor da aceleradora, a preferência dos investidores por empresas já maduras faz parte do comportamento natural do mercado, já que se trata de um setor ainda incipiente no Brasil.

Fonte: DCI