Bolsa

Baixa competitividade derruba demanda por Letra Financeira

16/10/2014

A falta de proteção do Fundo Garantidor de Crédito, a baixa liquidez, o alto valor de negociação e a pequena diferença de rentabilidade sobre os outros fundos de renda fixa aumentam os riscos

Apresentando pouca atratividade para o mercado em relação a outras aplicações de renda fixa, como os Certificados de Depósito Bancário (CDB) e as Letras de Crédito Imobiliário (LCI), a demanda por Letras Financeiras (LF) - títulos de dívida emitidos por bancos - está baixa.
Além disso, as instituições financeiras estão capitalizadas e, embora as LFs ofereçam baixo custo de captação, estão mais preocupadas em fazer uma faxina nas carteiras de crédito, eliminando as linhas de alto risco, do que em ofertar títulos no mercado.
Sem a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) - que garante reembolso de até R$ 250 mil para o investidor caso o banco quebre -, as Letras Financeiras têm uma série de desvantagens em relação às outras aplicações.
Especialistas ouvidos pelo DCI citaram a baixa liquidez da aplicação - os títulos têm prazo de resgate de pelo menos dois anos -, o alto valor negociado - o investimento mínimo na aplicação é de R$ 150 mil -, a incidência de imposto de renda e a pequena diferença de rentabilidade em relação às outras rendas fixas como os principais itens que afugentam os investidores das LFs.
O gerente de renda fixa da UM Investimentos, André Mallet, afirmou que não vê vantagem nenhuma nos títulos de dívida bancária em relação ao CDB - tradicionalmente, o meio de captação de recursos mais usado pelos bancos.

Sem sentido

"Não tem sentido investir em LF. Ela não tem liquidez, não é protegida pelo FGC. O corretor pode até garantir a liquidez, pedindo uma carência de um ano. Mas, se o investidor decidir resgatar antes do título vencer, a corretora terá que ter caixa para bancar a aplicação ou tentar negociar o título no mercado secundário", disse.
Segundo boletim mensal de renda fixa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o estoque de títulos bancários estava em R$ 343,4 bilhões no final de setembro, número que é 21,6% maior que o mesmo mês de 2013.
Apesar de não possuir uma regularidade, variando mês a mês, o volume de emissão de letras financeiras também foi maior no mês passado, em comparação com setembro de 2013 - R$ 5,1 bilhões no ano passado contra R$ 6,8 bilhões neste ano, alta de 31,3%.
Já o CDB fechou com 557,9 bilhões de estoque em setembro - valor 62,4% maior que o saldo de LF - e com R$ 204 bilhões em emissão de títulos, superior em mais de 28 vezes às Letras Financeiras.

Ajuste da carteira

Para o professor de economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Ricardo Couto, a capitalização dos bancos está em nível razoável, principalmente depois das medidas de incentivo ao crédito do Banco Central, que, entre outros, liberaram compulsórios de longo prazo.
"Os bancos cresceram demais, seja os de varejo ou os institucionais. Então, estão limpando a carteira de créditos duvidosos, ficando só com o ‘crédito bom‘", afirmou. "Estão renegociando o crédito podre e abrindo linhas de crédito com menor risco. Estão muito mais restritivos nas concessões", completou.
De acordo com o professor, para as Letras Financeiras se tornarem atrativas, a rentabilidade teria de ser bem mais alta, porém, se assim fosse, os bancos não teriam interesse em ofertá-las.
Os especialistas avaliaram que o clima de incerteza gerado pela eleição e a troca de governo afetam a rentabilidade das letras, mas tem impacto pequeno, se comparado com o mercado de renda variável ou de derivativos.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI