Bolsa

Captação de recursos de empresas no mercado seguirá afetada por eleições

08/10/2014

Emissores estão dispostos a esperar um pouco mais antes de lançar novas emissões de títulos de dívida corporativa no atual cenário de juros altos e de incertezas sobre a política econômica local

Afetada pelo cenário de incertezas eleitorais, a captação por empresas via a emissão de títulos de dívida corporativa no mercado doméstico ficou em R$ 17 bilhões no terceiro trimestre de 2014, o menor patamar em volume na comparação dos últimos sete anos.
Segundo o boletim mensal da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) divulgado ontem, o volume em ofertas de renda fixa - que inclui debêntures, notas promissórias, recebíveis e direitos creditórios - ficou em R$ 4,655 bilhões em setembro, o menor resultado para o mês desde 2009.
"Essa queda de volume é natural. Num cenário de incerteza, se não se sabe se será o mesmo governo ou outro governo, a primeira coisa que as empresas fazem - principalmente as reguladas, mas também as não reguladas - é captar o mínimo possível para manter o plano de investimentos e aguardar um pouco", argumentou a diretora da Anbima, Carolina Lacerda.
A diretora espera que o mercado de capitais doméstico tenda a melhorar após a conclusão do segundo turno da corrida presidencial no Brasil, em 26 de outubro próximo. "Quando vamos aos clientes, todos dizem que vão esperar. Quem [atualmente] está fazendo captação são as empresas elétricas, pois realmente precisam fazer, ou outras empresas que já tenham um plano de investimento com compromissos", disse.

Juros mais altos

Carolina, no entanto, ponderou, que apesar das incertezas no cenário doméstico, o mercado de captação externa continua aberto para empresas brasileiras. "O mercado está aberto, mas custa mais caro em função do cenário Brasil, todo mundo precifica isso. Há notícias falando de um possível dowgrade [rebaixamento da nota de risco crédito] e isso gera uma preocupação. Nós, que fazemos roadshows [eventos] lá fora o tempo todo, sabemos que os investidores estão mais reticentes e exigem um prêmio [juros] maior", diz.
A diretora completou que no mercado doméstico, as empresas também estão pagando juros mais altos. "Com a influência da alta dos juros, o dinheiro está mais caro, e as empresas estão preferindo operações mais curtas, mas isso também mostra uma expectativa, de que as taxas atuais devem cair mais a frente", diz Carolina.
Bônus internacionais
Em sua apresentação à imprensa, a diretora contou que no ano de 2014, até o final do último mês de setembro, o volume de captações de empresas brasileiras no exterior atingiu US$ 44,2 bilhões, um crescimento de 39% em relação a igual período de 2013.
Entre os destaques de setembro, o Banco BTG Pactual captou US$ 1,3 bilhão em bônus perpétuos, sem prazo definido para o pagamento do montante principal. Na sequência, a Samarco emitiu US$ 500 milhões em bônus com vencimento em 10,1 anos.
Em operações menores, a Gol Linhas Aéreas buscou US$ 350 milhões em bônus com prazo de 7,1 anos, e a Cimento Tupi lançou US$ 35 milhões com vencimento em 3,7 anos.

Infraestrutura

Quanto às perspectivas de futuras operações no mercado doméstico, há quatro emissões em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que podem buscar recursos nos próximos meses por meio de ofertas públicas, três delas relacionadas a investimentos no setor de infraestrutura.
A Concessionária do Sistema Anhanguera-Bandeirantes solicita a autorização do regulador para uma oferta de R$ 500 milhões, e a Concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos busca captar R$ 300 milhões. Já a Salus Infraestrutura Portuária pretende emitir R$ 305,65 em títulos.
Ainda entre os pedidos em análise no regulador, a União de Lojas Leader - empresa de varejo que possui o banco de investimentos BTG Pactual entre seus principais acionistas - busca realizar uma emissão de R$ 400 milhões.

Resumo de setembro

Mesmo com o volume considerado baixo, pelo menos 30 empresas realizaram operações de captação de recursos no mercado doméstico no último mês de setembro.
Em debêntures, que são títulos de dívida de longo prazo, o volume totalizou R$ 2,57 bilhões.
A maior captação foi realizada pela Companhia Brasileira de Distribuição (CBD) no montante de R$ 900 milhões, seguido pela emissão da Localiza Rent A Car com R$ 500 milhões, e pela Cálamo Distribuidora de Produtos de Beleza com R$ 420 milhões.
Em ofertas menores por esforços restritos (ICVM 476) também captaram: a Contax Participações, Gran Jardins, Cromex, Unidas, WTorre Engenharia, Vidroporto, e Mata de Santa Genebra Transmissão.
Em notas promissórias - que são títulos de dívida corporativa de curto prazo - outras 10 empresas captaram R$ 713 milhões, com destaque para a Galvão Engenharia que emitiu R$ 150 milhões.
O mercado ainda registrou 8 operações CRIs no montante de R$ 635 milhões, e duas ofertas de FIDCs que totalizaram volume de R$ 737 milhões no mês.

Autor: Ernani Fagundes
Fonte: DCI