Bolsa

Setor vive segunda maior onda de consolidação da história

27/08/2014

Fusões e aquisições mais do que triplicaram com busca de empresas por maior rentabilidade

Diante do aumento do risco e perda de rentabilidade, após a renovação das concessões de geração e transmissão pela Medida Provisória 579/2012, companhias energéticas brasileiras vivem a segunda maior onda de fusões e aquisições desde o início da série histórica produzida pela KPMG, em 1995. De acordo com o levantamento, foram 27 transações no primeiro semestre do ano, mais do que o triplo dos oito negócios em igual período de 2013. O número só fica abaixo das 43 transações até junho de 2006.

"Quando o governo mexeu na tarifação lá atrás, ele indiretamente forçou o mercado a ser mais competitivo, buscando uma rentabilidade maior. Aí o processo natural é haver fusões para as empresas terem economia de escala", explica o sócio da KPMG, Paulo Coimbra. A MP 579, consolidada na Lei 12.783/2013, estabeleceu regras para a renovação antecipada de concessões, mediante perda de receitas, visando reduzir as tarifas em 20%.

Segundo o consultor, a mudança regulatória passou a impactar o movimento de fusões e aquisições a partir do segundo semestre de 2013, quando foram realizadas 25 operações. Também em 2006, o recorde de transações se deveu a uma alteração legal: o novo marco regulatório do setor elétrico, lançado em 2004.

Compra e venda

Exemplo da movimentação para recuperação de receitas após o vencimento de concessões, no semestre, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) adquiriu 49,9% da Retiro Baixo Energética; também ampliou em 10% participação na hidrelétrica de Santo Antônio (3.580 MW), pela aquisição de parcela da Andrade Gutierrez; e aumentou em 25% sua participação na Renova.

Tendo investido R$ 2,8 bilhões até junho, ante meta de R$ 3,7 bilhões em 2014, a compra de participações é parte de estratégia da mineira para recompor portfólio. Durante teleconferência para apresentação dos resultados do segundo trimestre, o diretor de finanças e relações com investidores, Luiz Fernando Rolla, afirmou que a empresa ainda vê espaço em caixa para a conclusão de novas aquisições no segundo semestre, apesar da distribuição de dividendos extraordinários no valor de R$ 1,7 bilhão este ano.

Na ponta dos vendedores, a Braxenergy concluiu semana passada a venda de todos os seus ativos de geração a um fundo de participações inglês, conforme reportado pelo DCI. Os 5 GW em pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), biomassa, biogás, eólicas e solar passarão a ser administrados por holding controlada pelo fundo Mount Baker, com 85% de participação. A Braxenergy manterá parcela minoritária de 15%. "O País penaliza o empreendedorismo com riscos cada vez maiores, então tivemos que dividir o risco", disse o diretor executivo da Braxenergy, Helcio Camarinha.

Além da mudança regulatória, a KPMG aponta entre os fatores de consolidação do setor a entrada de estrangeiros no mercado brasileiro, principalmente chineses. É o caso da entrada da China Three Gorges no bloco de controle da UHE São Manoel (700 MW), a partir da aquisição de fatia de 33,3% da EDP Energias do Brasil.

Também a expansão brasileira na América Latina é um vetor, como o investimento da Odebrecht, junto à espanhola Enagas, para a construção de gasoduto no Peru. A consolidação no setor de renováveis, particularmente em eólicas, é outro fator de concentração de mercado. Autoprodutores que se voltam para a atividade fim são ainda potenciais vendedores.

O sócio da KPMG avalia que o movimento de consolidação do setor energético deve se manter aquecido. "Não é possível dizer se o volume vai se manter, mas [a consolidação] é uma tendência, ainda tem muita movimentação no setor", diz Coimbra.

Após a compra do controle do Grupo Rede pela Energisa, o negócio mais aguardado pelo mercado é a destinação das distribuidoras da Eletrobras. O anúncio da reestruturação das seis empresas é aguardado para depois das eleições.

Fonte: DCI

Autor: Thais Carrança