Bolsa

Com dólar estável, empresas adiantam contrato de câmbio

22/08/2014

De acordo com dados do Banco Central, saldo de financiamento que antecipa receitas com exportação aumentou 20% até junho deste ano

Diante da estabilidade do dólar, empresários brasileiros estão preferindo antecipar contratos de crédito à exportação. Dados do Banco Central (BC), divulgados no mês passado, revelam que o saldo do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) cresceu 20% no período de janeiro a junho de deste ano. Enquanto na comparação entre junho de 2014 e de 2013, elevou-se 10,9%.

O professor da Faculdade Santa Marcelina (FASM), Reinaldo Batista, afirma que esses números mostram um aumento expressivo da demanda por financiamento à exportação. "Se a gente considerar que o movimento das exportações se manteve estável entre o ano passado e este ano, podemos considerar que houve uma elevação importante no uso do ACC", diz. "Não se trata de aumento das exportações, mas de uma utilização maior dessa modalidade de crédito", complementa Batista.
O professor diz que o uso do ACC permite às empresas baratearem os seus empréstimos. "As linhas de crédito internacionais captadas pelos bancos e disponibilizadas às empresas apresentam taxas [de juros] mais baratas do que as nacionais", diz Batista.
O professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) e diretor-presidente do Instituto Fractal de Análises de Mercado, Celso Grisi, analisa que o câmbio tem sido um elemento utilizado pelas companhias para substituir o seu capital de giro. "As empresas, muitas vezes, aceleram a demanda desses contratos de câmbio para poderem suprir a ausência de empréstimos que não conseguem obter no mercado interno. Como o empréstimo interno é escasso, acaba fechando operação de câmbio", diz Grisi.
O professor da FIA ressalta que os empresários estão optando pelo ACC, mesmo diante da expectativa de valorização do câmbio. "Como precisam de dinheiro, acabam tomando esses empréstimos, mesmo sabendo que pagarão mais caro", afirma.
Além disso, Grisi diz que, se voltar ao mercado externo, é uma opção para compensar a falta de renda dentro do País.
Na análise de Grisi, a valorização do câmbio irá depender da intensidade do aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, podendo chegar, no final do ano, a um patamar de R$ 2,50.
Já para o professor da FASM, a expectativa é de que a elevação do câmbio, no médio prazo, ocorra de forma gradual e que não dê um salto muito grande.
O professor do curso de comércio internacional da Universidade Anhembi Morumbi, José Meireles de Sousa, avalia a elevação do ACC pode estar relacionado ao aumento do número de grandes empresas no Brasil entre 2012 e 2013. "Normalmente, as grandes empresas exportadoras tem um ciclo de cobrança amplo. Por isso, elas necessitam se financiar e a forma mais barata de obtenção de crédito, hoje, é o ACC, que permite financiamento por um período maior", afirma Sousa.
Segundo o BC, o período de financiamento do ACC passou de 6,2 anos em junho de 2013, para 7,7 anos no mesmo mês de 2014.
Operações
O valor das concessões de crédito na modalidade ACC têm se mantido estável durante os meses desse ano. O total de concessões de crédito a pessoas jurídicas foi de R$ 8, 727 bilhões em junho. Em maio, foi de R$ 8, 865 bilhões. Em abril, de R$ 7, 687 e em março, de R$ 8 bilhões.
Grisi comenta que o Ministério da Fazenda tem atrasado repasses de recursos de alguns financiamentos, com objetivo de fechar o superávit fiscal em patamares positivos. "O Banco do Brasil é o maior financiador da linha de crédito de ACC. E a disponibilização dos recursos dessa linha corresponde a repasses do Ministério da Fazenda", diz Grisi.
"O governo federal está atrasando esses repasses há cerca de dois meses, para fechar as contas nacionais em positivo. E isso complica vida dos exportadores, naturalmente", complementa.
Para Sousa, outro problema que envolve o financiamento à exportação no Brasil, é a maior dificuldade de obtenção de empréstimos pelas pequenas e médias empresas.

Autor: Paula Salati

Fonte: DCI