Brasil

Com setor externo como alternativa à crise, crédito a exportações aumenta

15/12/2015

As operações de Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) avançaram 22,5% até outubro; no mercado doméstico, somente o cartão de crédito e o cheque especial anotaram crescimento.
Pedro Garcia

São Paulo - Na contramão de todas as outras modalidades de crédito não rotativo para empresas, as linhas de financiamento a exportações foram as únicas que registraram avanço em 2015, até outubro, à medida que o comércio exterior surgiu como opção ao desaquecimento do mercado doméstico.

No outro extremo, as linhas rotativas - cheque especial e cartão de crédito - também anotaram crescimento, indicando queda na atividade econômica e maior dificuldade das companhias em conseguir empréstimos para capital de giro.

Os Adiamentos sobre Contratos de Câmbio (ACC), crédito em que a companhia antecipa, em real, o valor total ou parcial a ser recebido em dólar pela exportação, registraram aumento de 22,5% nas novas operações (concessões), que somaram R$ 110,2 bilhões em 12 meses até outubro, de acordo com dados do Banco Central.

As demais linhas de financiamentos a exportação com recursos livres (em que os juros são definidos pela instituição financeira) anotaram alta de 17,2%, para R$ 36,4 bilhões no período.

"O fato de o câmbio ter se alterado funciona como incentivo para produtor nacional começar a pensar no mercado externo como alternativa ao desaquecimento do mercado interno", afirmou Antonio Carlos Alves dos Santos, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Ao longo de 2015, o dólar comercial saltou de R$ 2,69, no início de janeiro, para R$ 3,90, ontem, avanço de 45%.

"Além disso, tem o fato de que o dólar está mais competitivo e há expectativa de que ele vá ficar nesse patamar", completou o economista.

Segundo Santos, o mercado pode ser arriscado se o exportador não travar a cotação da moeda norte-americana. O ACC já possui o mecanismo, na medida em que adianta o valor a ser exportado na cotação atual. "O mercado de câmbio é sempre arriscado, por isso, a empresa costuma fazer o hedge (proteção) na operação", explicou o professor.

Lúcia Helena Monteiro Souza, diretora de relações governamentais da Barral M Jorge Consultores Associados, afirmou que outro risco do exportador ao tomar crédito são as vendas não performadas. "Se o importador deixar de pagar, a companhia tem que ter caixa para arcar com a dívida junto ao banco", observou.

De acordo com a consultora, as linhas de crédito para exportações com recursos livres costumam ser usadas, majoritariamente, pelas grandes companhias. "Algumas poucas médias também. O crédito é um grande problema para as pequenas que querem exportar", disse, lembrando que a maior dificuldade se encontra nas garantias oferecidas.

Para ela, em 2016 o cenário deve se manter, com o aumento da demanda por linhas de financiamento a exportação.

Crédito rotativo

Na análise dos empréstimos destinados a fomentar a produção de bens para o mercado interno o cenário foi outro. Enquanto as linhas de capital de giro anotaram queda de 8,6% nas concessões, as de desconto de duplicata de 10,4% e as de aquisição de veículos de 19,8%, as modalidades de crédito rotativo registraram alta.

Os dados do Banco Central mostram que as concessões no cartão de crédito rotativo e parcelado, em que são cobrados juros, subiram 5,1% - em 12 meses foram concedidos R$ 31,2 bilhões em crédito nas linhas - e o cheque especial 7,1% - R$ 258,1 bilhões.

"O fato das empresas estarem entrando no rotativo mostra que ou elas tem dinheiro para pagar apenas uma parte da fatura do cartão, ou que não tem dinheiro para pagar nem o mínimo", analisou Eduardo Tambelini, sócio diretor da consultoria GoOn, especializada em risco de crédito.

De acordo com ele, embora o cheque especial já seja uma linha mais utilizada (quando a companhia está sem dinheiro na conta, o dinheiro da modalidade de crédito já é liberado), as empresas devem ser cautelosas com os juros.

A autoridade monetária aponta, em seu boletim de Política Monetária e Operações de Crédito do Sistema Financeiro Nacional, que os juros médios do cheque especial para pessoas jurídicas fecharam outubro em 259,1% ao ano e a taxa do rotativo do cartão de crédito em 283,6% ao ano.

Na avaliação de Santos, da PUC-SP, o cenário deve se agravar em 2016, diante das sinalizações de que a atividade econômica não deve melhorar e de que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve subir a taxa de juros básica (Selic), atualmente em 14,25% ao ano.

"Empresas pegas de calças curtas pela crise tem entraves na aprovação de financiamentos. As companhias que já se encontravam em dificuldade dificilmente sobrevivem. Outras reduzem de tamanho e depois conseguem avançar no processo", analisou. "Empresas fragilizadas darão espaço para novas", completou.

Inadimplência

Além de serem linhas adequadas à crise, os financiamentos a exportações apresentam baixa taxa de inadimplência. O relatório do BC mostra que os calotes em ACC ficaram praticamente estáveis em 1,2% em outubro, com ligeira alta de 0,1 ponto percentual. As demais modalidades subiram 0,5 ponto, porém ficaram 0,9% do total de crédito.

No caso das linhas rotativas, contudo, o cenário é outro. A inadimplência do cartão de crédito subiu 2,6 pontos, para 16,5%, e os calotes do cheque especial aumentaram 4,7 pontos, para 19,5%.

"É um cenário muito complicado, porque as empresas estão entrando nessas linhas emergenciais, situação que deveria ser temporária, mas não estão conseguindo pagar no mês seguinte", apontou Tambelini, da GoOn.

Panorama geral

A inadimplência das empresas no mercado financeiro ficou em 4,3% em outubro (alta de 0,7 ponto percentual). A taxa de juros média em 30,2% ao ano (avanço de 5,9 pontos) e o spread (diferença entre a taxa paga pelos bancos para captar dinheiro e os juros cobrados nos empréstimos) em 16,5%, alta de 3,3 pontos. As novas operações acumuladas em 12 meses até outubro caíram 2,7%, para R$ 1,47 trilhão.