Brasil

Empresas já terceirizam cobranças de empréstimos com um dia de atraso

17/11/2015

Diante da deterioração do cenário econômico, companhias e fundos também estão atentos para dívidas que não devem ser pagas e se tornarão ‘créditos podres‘, buscando retorno de longo prazo

Empresas que trabalham com crédito, como bancos e redes varejistas, começaram a terceirizar a cobrança de dívidas a partir de um dia de atraso. Paralelamente, as companhias de recuperação já miram empréstimos que provavelmente serão alvos de calotes, buscando impulsionar as receitas no longo prazo.
As mudanças dos rumos do processo de recuperação de dívidas não pagas começaram com o agravamento da economia do País. Antes, as instituições financeiras procuravam empresas especializadas em cobrança quando as parcelas dos empréstimos chegavam a mais de 90 dias de atraso e passavam a ser chamadas de "créditos de difícil recuperação".
Com a alta dos preços de itens básicos, como luz, água e transporte, e o avanço do desemprego - ambos pressionando a renda das famílias -, mesmo os créditos vencidos há menos tempo, e que antes eram considerados fáceis de recuperar, começaram a ser terceirizados.
"O momento econômico atual é diferente de um ano atrás. A gente tem que procurar flexibilizar na negociação, entender o momento do devedor e buscar um acordo que caiba no bolso dele, ou a gente não recupera nada", apontou Jefferson Frauches Viana, CEO da empresa de cobrança Way Back e presidente do Instituto GEOC, que reúne 16 companhias de recuperação de crédito.
Diferentemente de antes, os bancos e empresas que trabalham com crédito buscam, através da cobrança, manter o cliente adimplente, para que ele volte a consumir, em vez de apenas recuperar o crédito vencido, aponta Satoshi Fukuura, CEO da Siscom, responsável por parte das cobranças dos grandes bancos e uma grande rede varejista. "Há um trabalho de educação financeira, para tornar esse cliente um bom tomador de crédito".
Indicador da Boa Vista, administradora do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), mostra, no entanto, que a recuperação de crédito (ou seja, as dívidas que estavam atrasadas e foram pagas) caiu 1,5% no acumulado de 12 meses até setembro.
A tendência, segundo Flávio Calife, economista da Boa Vista, é de piora no cenário. "Com a expectativa de inflação no teto da meta [de 6,5%] em 2016 ou acima e o desemprego aumentando, a renda deve ficar ainda mais pressionada e as pessoas com menos condições de pagar as dívidas", disse.
Dados do Banco Central apontam que os atrasos de 15 a 90 dias no financiamento imobiliário aumentaram 1 ponto percentual em 12 meses até setembro, para 8,1%, enquanto no financiamento de automóveis subiu 0,2 ponto. Segundo Fukuura, a Siscom recupera entre 80% e 90% dos contratos de imóveis e automóveis que recebe, dentro de um prazo médio de 60 dias.
Compra de créditos podres
Diante do cenário econômico, parte dos empréstimos contraídos ou em andamento neste ano não será pago e deve se transformar nos chamados "créditos podres" - quando estão vencidos há mais de 180 dias - nos próximos anos.
Quando chega a esse ponto, a fatia da dívida que se consegue recuperar é muito pequena, de forma que o banco ou a empresa não financeira pode optar por vender o crédito para companhias de cobrança. É comum que essa dívida seja negociada a 1% do seu valor de face - isto é, um empréstimo de R$ 100, pode ser vendido a R$ 1. Qualquer valor acima de R$ 1 recuperado, portanto, já se configura em lucro.
Buscando comprar créditos vencidos, o Grupo Recovery, por meio de sua securitizadora, a Renova, emitiu uma debênture de R$ 1 bilhão no final de outubro. No documento da emissão, a empresa afirma que pretende adquirir dívidas em financiamento imobiliário e de veículos, cartões de crédito, empréstimos para pequenas e médias empresas, além de "outros créditos não performados originados de oportunidades especiais de investimento".
Viana lembrou ainda que, a maioria dos fundos que adquire "créditos podres" é internacional e, com o avanço do dólar frente ao real, devem adquirir esses recebíveis com um preço mais baixo, o que impulsiona o mercado. "No futuro, quando o cenário melhorar, esses créditos serão mais fáceis de recuperar", observou.
Fukuura afirmou que, a partir de 2016, a Siscom também pretende começar a atuar no mercado de negociação de carteiras de "créditos podres". "Hoje, nós estamos organizando as informações que temos dos bancos, com base em como fazemos a cobrança, em diversas faixas de atraso, para no futuro reivindicarmos essas carteiras", afirmou.

Fonte: DCI