Brasil

Cresce a quantidade de pessoas com menos de R$ 5 mil aplicados em banco

12/11/2015

Pessoas com renda menor estão resgatando dinheiro das aplicações para pagar contas, enquanto cliente com renda maior está mais conservador, o que faz com que ele adie decisões de consumo

O número de pessoas com menos de R$ 5 mil guardados nos bancos cresceu 2,43% de dezembro 2014 até o final do primeiro semestre deste ano, segundo o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O avanço representa 4,37 milhões de clientes do sistema financeiro.
Dados da entidade responsável pela proteção dos investimentos bancários mostram, por outro lado, que o volume de consumidores e companhias que tem mais de R$ 5 mil até R$ 100 mil aplicados diminuiu 6,67% no período, ou seja, 1,6 milhão de clientes deixaram essa faixa de "poupança".
O economista Miguel de Oliveira, diretor de estudos e pesquisas econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), afirmou que uma parte da massa de pessoas que passou a ter entre R$ 0,01 e R$ 5 mil poupados antes tinha mais recursos investidos, porém precisou resgatar uma parcela deles por pressão da desaceleração econômica.
"Com a crise afetando as famílias, muitas pessoas precisam desse dinheiro para fazer frente ao aumento da conta de luz, dos impostos, dos juros, etc.", apontou.
A faixa de investimento que perdeu o maior número de pessoas foi, justamente, a que está um degrau acima (entre R$ 5 mil e R$ 10 mil guardados), registrando uma queda de 9,36%.
"As pessoas estão deixando mais dinheiro correndo na conta. A gente vê as famílias postergando as decisões de investimentos", disse Marcelo Kopel, diretor de Relação com Investidores do Itaú Unibanco. No banco, a quantidade de depósitos à vista - que representa o dinheiro nas contas correntes - cresceu 28,7% em setembro, em relação ao mesmo período de 2014.
Outra parte do avanço dos clientes com menor volume de dinheiro guardado, de acordo com Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, é resultado da entrada de novas classes sociais ao mercado financeiro, que resulta no aumento de contas bancárias. "As pessoas que estão entrando no sistema começam poupando pouco e não querem gastar", avaliou.
Clientes mais ricos
Apesar do movimento para a faixa mais baixa de "poupança", o número de clientes com mais de R$ 100 mil investidos nas instituições financeiras está crescendo: 47,8 mil pessoas entraram na banda de mais de R$ 100 mil guardados.
Nessa faixa de "poupança", explica Oliveira, estão as famílias e empresas que têm uma renda melhor e são mais esclarecidas sobre finanças. "Essas pessoas, diante de um horizonte econômico incerto, estão adiando as decisões de consumo, deixando de viajar ou trocar o carro, por exemplo", afirmou.
Segundo Jair Lantaller, diretor do Instituto GEOC, o avanço do desemprego, que chegou a 8,7% no trimestre encerrado em agosto, também impacta nos investimentos das famílias de mais alta renda. "Muitos dos trabalhadores demitidos tinham salários altos e receberam indenizações altas. Eles estão guardando esse dinheiro, se preparando para o futuro".
Ajuste fiscal doméstico
Uma pesquisa do Instituto GEOC, que reúne as principais empresas de cobrança, aponta que nove em cada dez brasileiros com renda abaixo de R$ 1,45 mil têm dívidas em atraso. Além disso, de acordo com o estudo, 46,7% não sabe o valor total de sua dívida e um terço acredita que não conseguirá quitar os débitos até 2017.
"As pessoas estão com o orçamento apertado por causa de endividamentos de 2013 e 2014 ainda. E, quando a conta vem, elas têm que ir atrás dos recursos que têm guardado", afirmou Lantaller. "O problema é que, olhando o cenário de quitação, as pessoas estão jogando as dívidas pra frente, o que mostra que acabou até esses recursos", completou.
Dados de um pesquisa do Data Popular, no entanto, mostra que nove em cada dez consumidores da classe C já mudaram seu comportamento para conseguir diminuir os gastos e 73% já tomou alguma medida para aumentar a renda (62% fazem "bicos" e 51% fazem horas extras ou dobraram o turno. "As pessoas estão buscando fazer um ‘ajuste fiscal doméstico‘", disse Meirelles.
De acordo com ele, entretanto, as pessoas não estão tomando essas medidas para aumentar a poupança, mas para pagar as contas. "Por enquanto, é uma demanda muito objetiva. Ainda vai levar um tempo até que as pessoas voltem a investir", comentou.
Tipo de investimento
O tipo de papel em que as pessoas estão aplicando seu dinheiro mostra uma busca por investimentos mais rentáveis. Enquanto o volume de dinheiro investido nas cadernetas de poupança e nos depósitos a prazo - principalmente, os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) - está caindo, os recursos direcionados para as Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCIs e LCAs, respectivamente), ambas isentas de imposto de renda, e para as Letras de Câmbio aumenta, segundo o FGC.
Oliveira, da Anefac, explicou que, com a escalada inflacionária, que já chegou em 9,93% em 12 meses até outubro, leva as pessoas a buscarem investimentos que protejam o valor do seu dinheiro.

Fonte: DCI