Brasil

Comércio entre Brasil e Rússia recua, apesar de oportunidades com sanção

12/11/2015

Perdas em exportações nacionais (-36%) e importações (-20%) são impulsionadas pelo desaquecimento de ambas economias. Os dois países devem sofrer mais retrações em 2016

As exportações brasileiras para a Rússia diminuíram 36% e as importações recuaram 20% em 2015. Crises econômicas nos dois países afetam as relações comerciais entre ambos.
A recessão econômica na Rússia pode chegar aos 3,8% neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), resultado pior que o previsto para o Brasil, de retração em 3%. E essa não é a única similaridade entre as duas nações: no país euroasiático, a inflação supera os 10%, o rublo passa por desvalorização e a queda nos preços do petróleo também afeta a economia.
"O enfraquecimento dos dois países é o grande fator que causa essa queda nas trocas comerciais", confirma Matheus Andrade, consultor da Barral M Jorge. Ele ressalta que a "queda nos preços do gás natural" também tem impacto negativo para a economia russa.
Até outubro deste ano, o Brasil exportou US$ 2,1 bilhões em produtos para a Rússia e importou US$ 2 bilhões. Em igual período do ano passado, os resultados foram bem superiores: US$ 3,3 bilhões em vendas e US$ 2,5 bilhões em compras.
Andrade comenta que a Rússia está "substituindo carnes bovinas", produto mais comprado do Brasil em 2014, "por carnes de aves, que são mais baratas". Ele completa: "é um movimento interno da população local, que busca proteína de menor preço".
A venda de carnes para a Rússia, tradicionalmente elevada, despencou neste ano. Até outubro, foram exportados US$ 489 milhões em desossadas de bovino, apenas 42% do que foi registrado em 2014. Também houve queda nas negociações de suínos, de US$ 656 milhões no ano passado para US$ 531 milhões em 2015. De mesma forma, caíram as exportações brasileiras de outros produtos, como açúcares de cana (-37%) e soja (-28%), afetadas pelo desaquecimento da economia russa.
Renato Flôres, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que os russos passam por "ano bastante difícil", com "conflito ucraniano e consequentes boicotes dos Estados Unidos e da União Europeia, além da recente entrada polêmica no conflito da Síria".
O professor também menciona as trocas comerciais brasileiras neste ano com outros países do BRICS: "a China atingiu um patamar superior que não pode ser comparado com o de nenhum outro país, mas o contraste com a Índia é mais interessante: os indianos passam por momento econômico completamente diferente do russo e têm demonstrado um grande interesse em ampliar as relações comerciais com o Brasil. E esse interesse tem sido bem sucedido".
Entre os emergentes do BRICS, a Rússia só comprou mais produtos brasileiros que a África do Sul, sendo superada por Índia e China. Outros países de menor expressão econômica, como Bélgica e Uruguai, também ficaram à frente dos russos.
Investimento direto
Em 2015, a Rússia não aparece entre os países que mais investiram no Brasil, nem em participação no capital e tampouco em empréstimos intercompanhias. Nos documentos do Banco Central (BC), figuram nações de poder econômico bem menor, como Angola, Peru e Cingapura.
Para Andrade, "a aproximação entre os países ainda é relativamente nova e os russos ainda têm dificuldades com os padrões regulatórios brasileiros". O especialista também afirma que "as empresas russas ainda estão descobrindo o Brasil" e dá destaque para "o interesse russo nas áreas de defesa e energia".
Flôres aponta que "na questão do investimento, a Rússia tem dado maior atenção a outros países, como Quirguistão, Uzbequistão, Cazaquistão e outros antigos membros da União Soviética".
Futuro
Contudo, as perspectivas dos entrevistados pelo DCI para as relações econômicas entre Brasil e Rússia são positivas, em um prazo mais longo.
Andrade diz que "o governo brasileiro está se aproximando de Moscou, principalmente para aumentar a exportação de frutas e carnes". Segundo ele, as sanções econômicas impostas por norte americanos e europeus deixam, "espaço" no setor de alimentos. "A expectativa para os próximos anos é de aumento das trocas e investimentos", conclui.
Flôres também menciona que "a imposição do boicote traz oportunidade interessante para nós" e diz que esse espaço "ainda pode ser melhor aproveitado pelos brasileiros". O professor acredita também que "a Rússia é um parceiro que pode ser muito interessante, principalmente para exportações" e destaca que o país "pode aparecer como alternativa importante para as importações brasileiras, por exemplo, da área de defesa russa, que tem equipamentos bons, de fácil manejo e baratos".

Fonte: DCI