Brasil

Crédito cai em capital de giro e investimentos

29/10/2015

Boletim do Banco Central aponta que as concessões caíram 4,7% em setembro, principalmente por conta dos financiamentos com recursos direcionados, que diminuíram 15,3% em 12 meses

Os empréstimos para empresas estão em queda, tanto nas linhas voltadas para capital de giro, quanto naquelas direcionadas para investimentos, aponta o último boletim de crédito do Banco Central, divulgado ontem.
O relatório mostra que as concessões - que considerada somente os novos financiamentos contratados com os bancos - registraram retração de 4,7% no acumulado de 12 meses até setembro, comparado com mesmo período do ano passado.
As linhas de curto prazo estão sofrendo por conta da situação das empresas frente ao cenário macroeconômico: com menos dinheiro entrando, as firmas precisam readequar o orçamento - fazendo sobrar recursos no final do mês para girar o caixa - ou financiar o capital de giro nas instituições financeiras.
O problema, segundo Fernando Segato, sócio-diretor da Gorioux Faro Consultoria, é que as companhias que estão procurando os bancos são justamente a que não fizeram o dever de casa e correm o risco de quebrar. "É uma demanda não estruturada e sem garantias. Vem daquele empresário que liga para o gerente e pede dinheiro. Os bancos, avaliando esse risco, portanto, não liberam o crédito", explica.
Com o custo da energia elétrica, do aluguel e das matérias-primas subindo e as vendas caindo na casa de dois dígitos, Nicola Tinas, economista da Acrefi, ressalta que o ajuste da empresa precisa ser drástico para funcionar. "Isso faz com que os agentes vivam um momento de aversão ao risco", pontua.
No caso das modalidades de crédito de longo prazo, voltadas para investimento, o obstáculo para o avanço dos financiamentos está na demanda. De acordo com os especialistas, diante do horizonte nebuloso causado pela crise política e a necessidade de ajustes nas contas públicas, as companhias, atualmente, estão receosas em apostar na expansão dos negócios.
"Nos últimos oito meses tivemos mudanças drásticas na carga tributária. A margem calculada por uma empresa em um projeto de investimento pode mudar a qualquer momento, diante de uma nova alta de imposto que pode acontecer", pondera Segato.
Tingas aponta ainda que não existe espaço, hoje, para uma empresa imobilizar capital para ter retorno no futuro. "As companhias estão usando os recursos para salvar a operação e não ter problema de solvência", afirma.
Bancos públicos
O boletim do regulador mostra também que os empréstimos com recursos direcionados, que possuem taxas reguladas e são, tradicionalmente, os maiores fomentadores do investimento, estão em queda mais acentuada que os créditos com recursos livres (em que as taxas de juros são definidas pelos próprios bancos).
De acordo com o documento, as concessões com recursos livres caíram 2,6%, enquanto aquelas com recursos direcionados retraíram 15,3%.
"A análise da composição do crédito direcionado mostra, ainda, que aquelas modalidades associadas às decisões de investimento amargam fortes quedas", observa o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), em relatório analítico.
Rotativo e exportação
As duas únicas frentes em que o crédito não sofre contração no crescimento são nas linhas rotativas (empréstimos emergenciais) e nas modalidades direcionadas para exportação.
O relatório do BC aponta que a linha de Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), uma das principais voltadas para exportadores, registrou avanço de 24,8% nas concessões e 32,2% no saldo - que mede o volume total de financiamentos em andamento.
Segundo Segato, o avanço do dólar, bem como de outras divisas estrangeiras, frente ao real, está impulsionando as exportações, principalmente no agronegócio, e explica o crescimento desses empréstimos.

Fonte: DCI