Brasil

Regiões devem ter melhora mais lenta durante esta década

06/10/2015

Indicador do Ipea mostrou que a vulnerabilidade social reduziu em grande parte das cidades brasileiras; contudo, ajuste fiscal e desaceleração do crescimento vão diminuir ritmo de avanço

O ajuste fiscal e a queda da economia devem reduzir o ritmo de superação das vulnerabilidades sociais do País nessa década. Para especialistas, uma boa parte da reversão desse cenário vai depender de aportes em infraestrutura, um dos maiores gargalos das regiões metropolitanas.
Ao contrário do esperado para essa década, os anos de 2000 a 2010 apresentaram expressiva melhora nas condições de vida e de trabalho, conforme aponta o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea). O indicador, divulgado ontem, caiu em todas as regiões da sondagem.
A maior retração foi na Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá (31,1%) - que abrange as cidades de Cuiabá, Várzea Grande, Nossa Senhora do Livramento e Santo Antônio de Leverger. O IVS da região foi de 0,412 (alta vulnerabilidade), em 2000, para 0,284 (baixa vulnerabilidade), em 2010. Em seguida está Natal, que apresentou queda de 29,6% em seu IVS, no mesmo período, passando de 0,446 (alta vulnerabilidade), para 0,314 (média vulnerabilidade).
A Grande São Luís, por sua vez, teve retração de 28,3%, saindo de uma situação de vulnerabilidade muito alta para média. Os dados consolidados do Ipea mostram que, até 2010, a maioria das regiões conseguiram alcançar um nível de média vulnerabilidade. Com exceção de Manaus, que apresenta vulnerabilidade alta, e das regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Vale do Rio Cuiabá, onde o IVS está entre 0,200 e 0,300 (baixo).
O número final do indicador é calculado a partir das condições de infraestrutura urbana (acesso a saneamento básico e mobilidade urbana), renda e trabalho e capital humano (inclusão social em saúde e educação), registradas em cada uma das regiões.
Fábio Silva, economista do Conselho Federal de Economia (Cofecon), chama a atenção para o desempenho do Norte e do Nordeste, onde houve grandes quedas. "Essas regiões foram foco das políticas públicas nos últimos anos. As políticas de concessão de crédito e de valorização do salário mínimo beneficiaram os estados mais pobres, concentrados, em grande parte, no norte do País", diz Silva. "Portanto, por depender muito dos investimentos públicos, que foram cortados neste ano e em 2016, a tendência é que essas regiões sofram mais e que tenham piora em infraestrutura".
Projeção
Para Silva, o IVS das regiões metropolitanas deve desacelerar a sua queda entre os anos de 2010 e 2020, "após dez anos de crescimento bastante favorável". "Estamos em ano de recessão, em meio a um ajuste fiscal de curto prazo. O boom das commodities já passou e não será mais um vetor de crescimento. Assim como o modelo de crescimento via consumo já se esgotou. Levando em conta esses fatores, a tendência é a que a redução das vulnerabilidades ocorra em um ritmo menor. Não creio, contudo, que chegará ao ponto de retrocedermos em todos os ganhos sociais", avalia o economista da Cofecon.
Para ele, os investimentos em infraestrutura deveriam ser o novo vetor de crescimento do Brasil. O indicador do Ipea mostrou que esse é um dos nossos maiores gargalos. No levantamento, a infraestrutura urbana foi o item que apresentou os menores progressos nas regiões metropolitanas.
Por isso, Bárbara Marguti, coordenadora de Estudos em Desenvolvimento Urbano do Ipea, recomenda que os gestores públicos olhem para esses dados e busquem reduzir esses gargalos em suas cidades. "A Grande São Luís foi a região que mais evoluiu em questão de infraestrutura urbana, com queda de 24% nesse índice. No entanto, é uma das regiões mais vulneráveis do País", comenta a coordenadora.
"O menor progresso em infraestrutura urbana no indicador do Ipea é uma sinalização para os gestores públicos elevarem os investimentos no setor, de forma a melhorar o ambiente de negócios das regiões para atrair aportes", finaliza o economista do Cofecon.

Fonte: DCI