Brasil

Dólar bate novo recorde e déficit em transações correntes cai a US$ 2,4 bi

24/09/2015

Com câmbio elevado, investimentos no Brasil sobem em relação aos gastos no exterior. E Banco Central prevê resultado um pouco melhor para a balança de pagamentos no acumulado do ano

A alta da moeda americana tem forte impacto nas trocas entre Brasil e exterior. Especialistas destacam bom momento para exportações e queda de compras no exterior, que podem afetar a produtividade e os preços no País.
O dólar encerrou o dia, ontem, cotado em R$ 4,05, maior patamar registrado desde a criação do real. Um pouco mais cedo, o Banco Central (BC) divulgou os números do setor externo, que mostram o saldo das transações feitas pelo Brasil com estrangeiros. Ao apresentar os dados, Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do BC, afirmou: "Taxa de câmbio e ritmo de atividade econômica têm influência direta sobre esses resultados e, em função desse ajuste, estamos revisando nossa projeção de déficit para o ano".
O déficit citado por Maciel, nas transações correntes, ficou em US$ 2,48 bilhões no mês passado. Em igual período de 2014, o resultado negativo foi maior, de US$ 6,91 bilhões. Com a elevação do câmbio, o BC revisou a projeção para o acumulado deste ano: agora, espera-se rombo de US$ 65 bilhões, estimativa mais positiva que a anterior, de déficit nas transações correntes em US$ 81 bilhões.
Com o real desvalorizado, fica mais barato comprar produtos feitos no Brasil. Neste cenário, as exportações têm superado as importações e favorecem a queda do déficit das transações correntes. Para a balança comercial deste ano, o BC elevou a projeção de US$ 3 bilhões para US$ 12 bilhões.
"Os produtores brasileiros que são competitivos no exterior estão ganhando com essa cotação e podem ampliar suas vendas", explicou Luciano D‘Agostini, doutor em economia pela UFPR.
Mauro Rochlin, professor da FGV, destacou que "se houver maior estabilidade da moeda em um patamar alto, as exportações brasileiras poderão aumentar mais".
O Investimento Direto no País (IDP), que ficou em US$ 5,2 bilhões no mês passado, também é favorecido pelo real mais barato. "O câmbio contribui para o IDP, tornando mais atrativos os ativos", disse Maciel. Ainda assim, os resultado de 2015 ficou longe do registrado durante o ano passado (US$ 10 bilhões).
Para Peggy Beçak, professora de economia internacional da FAAP, "há necessidade de estabilidade econômica e política para atrair investidores estrangeiros. Como esse cenário não é visto, esses investidores trabalham com maior cautela e preferem apostar em outros países". Beçak ressaltou também que vários parceiros do Brasil, como a China, vivem momentos menos favoráveis e investem menos neste ano.
A professora acredita que o dólar deve continuar subindo por mais tempo e aposta que a divisa pode chegar perto dos R$ 4,50 neste ano. O relatório Focus, levantamento feito pelo BC com especialistas no setor, mostra expectativa mais otimista, de câmbio em R$ 3,86 ao final de 2015.
"O provável aumento na taxa de juros pelo banco central americano [Fed], nova queda no grau de investimento brasileiro e o enfraquecimento da China podem incentivar ainda mais a alta do dólar", concordou D‘Agostini.
Câmbio e inflação
As importações e o investimento no exterior sofrem efeito contrário com a elevação do câmbio. Os produtos e ativos estrangeiros ficam mais caros e os brasileiros diminuem suas compras de outros países.
Os gastos com importações ficaram em US$ 12,8 bilhões no mês passado. Em igual período de 2014, US$ 19,5 bilhões foram destinados a compras de bens no exterior. Já as saídas do Investimento Direto no Exterior caíram de US$ 3,9 bilhões para US$ 830 milhões no mesmo período.
De acordo com os economistas entrevistados, a diminuição nas compras do exterior pode afetar os preços no Brasil. "Parte dos componentes que compõe produtos brasileiros é importado. Com o aumento do dólar, esses componentes ficam mais caros e os produtos finais também", afirmou D‘Agostini. "Acredito que a inflação vai estourar a meta em 2014", apostou.
Rochlin completou: "Com o importado caro, o produto nacional fica mais atraente. Assim, a demanda por estes aumenta e os preços crescem".

Fonte: DCI