Brasil

Região Sudeste puxou retração nas vendas externas neste ano até agosto

15/09/2015

Receitas das exportações caíram 18% no local, de US$ 77,8 bilhões para US$ 63,5 bilhões. O aumento no volume de produtos vendidos aparece como ‘tentativa para compensar as perdas‘

São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo ampliaram o volume de suas vendas, mas viram as receitas provenientes de exportações caírem neste ano. A região é a mais afetada pela instabilidade do comércio internacional.
Os ganhos com exportações caíram 18% no Sudeste, de US$ 77,8 bilhões para US$ 63,5 bilhões. A diminuição aconteceu mesmo com o aumento no volume de produtos vendidos, que cresceu de 198 milhões de toneladas para 220 milhões de toneladas. Esses resultados aparecem na comparação entre os oito primeiros meses de 2014 e igual período deste ano.
O problema é visto, em menor escala, em todo o País. Os ganhos caíram também nas regiões Norte (-26%), Centro-Oeste (-20,4%), Sul (-11%) e Nordeste (9,7%). Ainda que as perdas em receita no Sudeste não tenham sido as maiores, o valor proporcional das vendas cai quando se adiciona à conta o volume dos produtos negociados. A região só não ampliou mais a porção exportada do que o Nordeste, superando as variações registradas nas demais regiões.
"Parte das vendas do Sudeste é composta por manufaturados. Grande parcela desses produtos é exportada para países do Mercosul e encara barreiras comerciais", explica Antônio Carlos Alves dos Santos, professor de economia da PUC-SP. "Isso acontece, principalmente, nas negociações com a Argentina, e pode explicar a diminuição dos ganhos apesar do aumento do volume exportado", conclui o economista.
Vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Fábio Faria segue o raciocínio de Santos: "Os automóveis, vendidos para países da América do Sul, valem menos hoje, o que afeta essa alteração no saldo". O especialista também destaca as vendas de commodities pelos estados da região: "São Paulo exporta bastante açúcar, produto que teve queda grande de preço; Minas Gerais tem o mesmo problema com o minério de ferro; e o Rio de Janeiro passa por essa situação com o petróleo". Sobre os produtos citados vendidos por cariocas e mineiros, Faria ressalta que "são pesados, o que causa aumento do volume, e têm preço baixo proporcionalmente, com consequente queda nas receitas".
Na comparação entre os oito primeiros meses de 2014 e igual período deste ano, São Paulo negociou quase dois milhões de toneladas a mais e ganhou US$ 4 bilhões a menos. Espírito Santo fez exportações superiores em oito milhões de toneladas e teve receitas inferiores em US$ 1 bilhão. Rio de Janeiro vendeu sete milhões de toneladas a mais e recebeu US$ 4 bilhões a menos. O resultado mais surpreendente foi registrado em Minas Gerais: o volume subiu em cinco milhões de toneladas e as receitas caíram mais que US$ 5 bilhões no mesmo período.
Faria lembra que o cenário é visto em todo o País. "Vivemos uma piora dos termos de troca no Brasil. O preço dos produtos vendidos caiu muito. O aumento do volume das vendas acontece como uma tentativa para compensar essa queda." Ele completa: "Quando há maior quantia exportada, os custos operacionais, como os relacionados a frete e seguro, aumentam. Por isso, a receita líquida, atualmente, diminui ainda mais".
‘Câmbio favorável‘
A desvalorização recente do real, intensificada neste ano - na sexta-feira, um dólar custava mais que R$ 3,85 - ameniza o impacto da diminuição dos ganhos, mas não altera o caminho traçado pela economia brasileira. "Há dois movimentos que afetam o País: o primeiro indica que o setor industrial, responsável por produtos de maior valor agregado, tem sua participação no PIB reduzida. O segundo é a queda na demanda de commodities, que diminui o preço desses bens", diz Santos.
Para o professor, o enfraquecimento da indústria acontece por causa do "aumento nos salários desse setor, da defasagem estrutural e, até pouco tempo atrás, do real valorizado". A depreciação da moeda brasileira pode ser positiva nesse sentido: "com câmbio favorável, pode haver melhora na competitividade do setor industrial", afirma o economista. Por outro lado, Santos não acredita em um aumento no valor das commodities, já que esse cenário "depende de um crescimento da demanda chinesa e não há indicação de que isso vá acontecer".
Com as importações caindo mais que as exportações, a balança comercial brasileira segue positiva neste ano, em 7,3 US$ bilhões até agosto.

Fonte: DCI