Brasil

Inflação recua e Banco Central fala em condução ‘na direção correta‘

11/09/2015

IPCA teve alta de 0,22% em agosto, bem abaixo dos 0,62% registrados no mês anterior. Mesmo com a queda, autoridades do BC indicaram que taxa Selic deve ser mantida em 14,25% ao ano

A alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu para 0,22% em agosto. Ainda assim, o acumulado em 12 meses chegou a 9,53%. Banco Central indicou uma manutenção da política monetária atual, mas ponderou que cenário pede atenção.
O resultado do IPCA, apresentado ontem pelo Instituto Brasileiro de Estatística (IBGE), é o menor para agosto desde 2010. Os 0,22% de aumento indicam desaceleração do crescimento dos preços em relação a julho, quando a alta foi de 0,62%. Contudo, o arrefecimento da inflação não impediu que o total em 12 meses alcançasse 9,53%, bem acima dos 6,5% colocados como teto da meta pelo Banco Central (BC). Em 2015, o IPCA já chega a 7,06%, também rompendo o limite estabelecido.
Pouco depois da divulgação do aumento de preços, foi publicada a ata do Copom. No documento, autoridades do BC explicaram a alta da inflação como resultado de "realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e dos preços administrados em relação aos livres".
"Temos uma elevação fora da curva, em 2015, por causa dos preços administrados [de combustíveis e energia elétrica], que foram ajustados neste ano", concordou Antônio Correa de Lacerda, professor de economia da PUC-SP. "Esse efeito é momentâneo, pontual, e não permanente", completou o economista.
Entre os preços estudados pelo IBGE, se destaca a queda de 24,9% nas passagens aéreas, item que registrou a maior diminuição no mês. Para Tharcisio Souza Santos, professor da faculdade de economia da FAAP, "há uma virada do turismo internacional para o turismo doméstico por causa da alta do dólar. Muitos brasileiros que viajavam para o exterior agora preferem ir para algum lugar no País".
Também chamam a atenção os preços menores de algum alimentos, como as batatas-inglesas, que tiveram queda de 14,7% no mês. Também ficaram mais baratos o tomate (-12,8%), a cebola (-8,2%), o açaí (-7,3%) e a cenoura (-6,3%). Por outro lado, registraram alta a farinha de mandioca (4,4%) e o alho (2,7%).
"Sofremos com estiagem e estresse hídrico, que causaram aumento dos preços de alimentos. Conforme esses problemas são resolvidos, os preços tendem a cair", afirmou André Nassif, professor da FGV. O economista acredita que a inflação não subirá muito mais neste ano: "deve encerrar 2015 em 8,5% e convergir para a meta no ano que vem".
A previsão dos especialistas consultados pelo BC, divulgada no relatório Focus, aponta para IPCA em 9,29% no final de 2015. Representantes do grupo Itaú Unibanco acreditam em um resultado semelhante, de 9,5% neste ano.
Para combater a alta dos preços, o Banco Central elevou a taxa básica de juros seguidas vezes em 2015. Atualmente, a Selic está cotada em 14,25% ao ano. Na ata do Copom, foi explicado que "a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta".
Selic em alta
A colocação da taxa básica de juros em níveis elevados, um dos maiores do mundo, é vista de maneira diferente pelos especialistas entrevistados.
"A alta dos preços não deve ser combatida com juros. Para evitar a inflação, devem ser estimuladas a concorrência e a produtividade, que levam a preços mais baratos", defendeu Lacerda. O professor disse também que "juros altos servem para combater a demanda, que não tem crescido".
Santos tem opinião distinta: "não podemos, hoje, diminuir a Selic sem causar impacto na inflação", afirmou. Para ele, "o efeito do aumento da taxa de juros demora alguns meses para dar resultado. Por isso, ela [Selic] deve ser mantida no patamar em que está hoje".
Para André Nassif, "o BC foi longe demais com a taxa de juros". O economista disse também que "esse aumento pode ter causado uma situação de dominância fiscal. Nesse cenário, as despesas do governo com juros é alta o suficiente para comprometer o orçamento, mesmo com o esforço fiscal, e prejudicar o crescimento econômico do País".
Na ata do Copom foi repetido que "o ritmo de expansão da atividade doméstica neste ano será inferior ao potencial" e que "os avanços alcançados no combate à inflação (...) mostram que a estratégia de política monetária está na direção correta". Autoridades indicaram ainda que existem "elevados riscos para a estabilidade financeira global" e que a condução monetária precisa se manter "vigilante".

Fonte: DCI