Brasil

‘Gastos do governo brasileiro pioram desigualdade‘, afirma diretor do FMI

03/09/2015

Subsídios por bancos públicos, pagamento de juros, pensões e sistema tributário são citados por Otaviano Canuto, que vê o governo brasileiro como uma "máquina de concentração de renda"

As despesas da União e o sistema tributário favorecem o acúmulo de posses no País. É o que defende Otaviano Canuto, diretor executivo pelo Brasil no FMI. Ele ressalta que a alta disparidade tem impacto nos negócios e no desenvolvimento econômico, já em recessão.
A desigualdade na distribuição de riqueza chama a atenção em todo o planeta. De acordo com estudo realizado pela ONG Oxfam, em 2014, as 85 pessoas mais ricas do mundo possuíam fortuna equivalente às posses de metade da população mundial, 3,5 bilhões de pessoas. No Brasil, uma estimativa feita por Fábio Avila Castro, auditor fiscal da Receita Federal, mostra que 0,9% das pessoas mais ricas detêm entre 59,90% e 68,49% da riqueza existente em todo País.
Otaviano Canuto diz que as causas da desigualdade variam entre os países do globo. Em seguida, explica o caso brasileiro: "os avanços conseguidos com programas sociais bem sucedidos, como o Bolsa Família, contrastam com medidas que favorecem o acúmulo de posses na mão de poucos", comenta. "O sistema tributário, subsídios por bancos públicos, pagamentos de juros e pensões" são os causadores da disparidade citados pelo diretor executivo do Fundo Monetário Internacional.
Sobre os impostos pagos no Brasil, Canuto afirma que o sistema tributário deveria "penalizar menos os bens de consumo dos pobres, com maior taxação proporcional da renda". O economista Márcio Pochmann também fala sobre o tema: "há um espaço grande para o Brasil avançar em políticas redistributivas, arrecadando impostos progressivamente, desonerando os mais pobres e cobrando mais dos ricos".
Ao falar das despesas federais, Canuto diz acreditar na necessidade de um "melhor escrutínio das pensões pagas no Brasil", já que grande parte dessas transferências seria "injustificada". Também foram criticados os subsídios feitos via bancos públicos, como o BNDES, colocados como gastos públicos "não distributivos". Para evitar o alto pagamento de juros, que tem espaço crescente no orçamento, o entrevistado defendeu "a revisão do tamanho da dívida pública, assim como a correção de gastos e tributos".
Sobre as despesas do governo, Pochmann pede "mais investimentos em transporte coletivo, bons sistemas educacionais e melhora da saúde pública", o que poderia combater a desigualdade no longo prazo. O economista pondera que houve melhoras significativas nesses setores nos últimos anos.
A má distribuição de tudo que é produzido também prejudica as empresas nacionais e o crescimento da economia, de acordo com Canuto. "Quando não há uma boa divisão dos ganhos, muitas pessoas seguem sem acesso a serviços básicos, como saúde e educação, de boa qualidade. Esse afastamento prejudica a produtividade da população do país", diz. "A concorrência também é afetada pelo acúmulo de riquezas, o que afeta a eficiência da produção e o preço dos produtos, que poderia ser menor", conclui a autoridade.
Pochmann acredita que o enfraquecimento da economia mundial nos últimos anos pode estar ligado ao aumento da desigualdade no planeta. "Enquanto uma parcela pequena da população mundial fica com quase toda a riqueza produzida, percebemos um crescimento menor em vários países". Para ele, uma maior inclusão social gera aumento do consumo, da produção e do investimento, o que fortalece a economia. Todavia, o analista lembra que outros fatores, como a crise causada pelo estouro da bolha imobiliária em 2008, também tiveram peso relevante no desaquecimento econômico global.
Otaviano Canuto e Márcio Pochmann estarão presentes no 21º Congresso Brasileiro de Economia, cujo tema central será "A Apropriação e a Distribuição da Riqueza - Desafios para o Século 21". O evento será realizado em Curitiba, entre os dia 9 e 11 de setembro.

Fonte: DCI