Brasil

Norte e Nordeste conseguem evitar maior redução na frequência de lojas

18/08/2015

Para especialistas, as opções de lazer, entretenimento e a infraestrutura, especialmente nos grandes centros, justificam menores quedas de fluxo nessas regiões; empresas querem expandir

Em meio ao cenário de consumo retraído em todo o País, o varejo do Norte e Nordeste parece ter conseguido evitar perdas mais acentuadas que em outras regiões brasileiras. Melhores opções de entretenimento e espaços mais agradáveis para fazer frente às temperaturas altas, além de um forte apelo aspiracional pela classe média, são vistos como fatores decisivos.
Enquanto no Sul a retração chegou a 6,5% no fluxo, em julho, o Nordeste contabilizou um recuo de apenas 0,5% e o Norte de 0,9% no número de pessoas nas lojas, tanto de shoppings quanto de ruas, como aponta uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC).
As lojas instaladas no Centro-Oeste tiveram uma redução de 4,7% no número de clientes e no Sudeste o percentual foi de 3,6%. A base de comparação refere-se ao mesmo período do ano passado, afirmou o presidente da SBVC, Eduardo Terra.
"Esperávamos uma recuperação mais significativa, visto que em 2014 houve um tráfego muito pequeno nas lojas em função da Copa do Mundo", analisou, lembrando que no semestre a queda foi de 6,6%, sendo o resultado 0,4% menor do que o visto nos sete primeiros meses do ano anterior.
Para o coordenador de administração geral da AD Shopping, Tony Bonna, o fator determinante para a manutenção do fluxo de consumidores nas lojas no Norte e Nordeste é a grande concentração da chamada "nova classe média" brasileira nestas duas regiões. "É como um exército de pessoas, que na última década entrou com força no consumo", ressaltou.
O coordenador destaca ainda que no caso dos shopping centers, os empreendimentos começaram a implementar em seu mix as melhores opções de entretenimento dessas regiões. E que, para algumas cidades, principalmente do Norte, as temperaturas altas, aliadas às fortes chuvas, acabam por tornar os locais como as melhores opções de consumo e lazer.
Diferenciação
Grandes varejistas regionais e grupos locais que durante anos foram as principais opções de consumo em suas cidades e desenvolveram modelos de lojas de departamento diferenciadas também costumam ter clientes cativos em cidades do Norte e Nordeste. É o que disse o coordenador de administração geral da AD Shopping. Segundo ele, tais lojas criaram fortes relações com os consumidores, através de cartões próprios e crediários.
Diante do cenário, a AD Shopping - que tem patrimônio superior a R$ 5,2 bilhões, com 1,8 milhão de metros quadrados de área construída -, diz que planeja ter novos negócios no Norte e Nordeste. Prova disso é que a empresa vai inaugurar no ano que vem o Camará Shopping, em Camaragibe (PE), além de já gerenciar o Center Lapa, em Salvador (BA) e o Shopping Passeio, em São Luís (MA). No Norte, a companhia administra o Millennium Shopping, em Manaus (AM) e o Shopping Pátio Belém, em Belém (PA). "Também estamos desenvolvendo o projeto de expansão do IT Center na capital paraense e somos acionistas do Shopping Pátio Marabá, em Marabá [PA]", disse Bonna.
Outra empresa que também aposta no Nordeste é a Fantasia Store, rede especializada em produtos licenciados Disney, Marvel e Star Wars. A companhia acaba de inaugurar um quiosque no Shopping da Bahia, o mais antigo do estado, inaugurado em 1975. Trata-se da segunda unidade da bandeira em Salvador, apontou o gerente de marketing da Fantasia Store, Charles Pinho.
O gerente ressaltou que Salvador tem três milhões de habitantes e é uma cidade estratégica no Nordeste, já que é um local com grande potencial de crescimento para o setor de brinquedos e presentes. "A região apresenta um crescimento acelerado e esse ponto é fundamental para atingirmos as expectativas de alcançarmos 100 operações até o final de 2015", afirmou.
Cenário negativo
Não é à toa que o cenário não está tão ruim para os comerciantes do Norte e Nordeste. Para o presidente da SBVC, Eduardo Terra, a diferença do resultado do fluxo de pessoas entre as regiões está relacionado também à sensação de confiança com relação à economia entre os consumidor.
"Para entender o comércio nós temos de observar o tripé: renda, crédito e emprego. Nessas regiões como Norte e Nordeste percebemos que a imagem negativa desses fatores não é ainda tão forte." Para ele, existe outro fator que também explica a situação atual. "O consumidor nesses locais está com mais confiança e não teme tanto em perder o emprego", destacou.
Terra comentou ainda que de forma geral o resultado de queda no fluxo de pessoas nos estabelecimentos comerciais no Brasil surpreendeu de forma negativa. "O ideal seria o fluxo estar crescendo. Considerando o resultado negativo esperado para o Produto Interno Bruto [PIB], se ao menos o fluxo tivesse retraindo em 2% ou menos ainda seria aceitável. Mas não é o caso."
O assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Altamiro Carvalho, afirmou que a situação este ano está muito ruim para o comércio, apesar de o mês de julho ter registrado no País alta de 1,4% no fluxo ante a junho, conforme a pesquisa da SBVC junto com a Virtual Gate. "Está relacionado a efeitos sazonais. Julho tem um dia a mais e não tem feriado nacional."

Fonte: DCI