Brasil

Maiores ‘poupadores‘ exigem qualidade e bom atendimento

28/07/2015

Mais atenção. Para atender perfil de moradores das cidades com maior poupança per capita, empresas devem desenvolver oferta que atenda as necessidades de um consumidor consciente

Renda acima da média, bons conhecimentos de finanças pessoais, profissionalmente estável e de ascendência europeia, acostumada a economizar. Estas são características dos moradores das cinco primeiras cidades em poupança per capita do País.
Para atender esse perfil, que sinaliza um consumidor exigente, as empresas precisam complementar suas ofertas de produtos e serviços de qualidade com atendimento especial, dizem especialistas.
Compõem o grupo dos maiores poupadores os municípios de São Caetano do Sul (em São Paulo), com média por habitante de R$ 13.750 depositados em caderneta de poupança; Garibaldi (em Rio Grande do Sul), com R$ 13.577; Monte Belo do Sul (também no Rio Grande do Sul), com R$ 13.539; Águas de São Pedro (no interior paulista), com R$ 12.769; e Muçum (RS), com R$ 11.335.
A média nacional é de R$ 2.001 aplicados na poupança. As capitais de São Paulo e do Rio de Janeiro registram, respectivamente, R$ 8.813 e R$ 7.728. Os valores são resultado de cruzamento de dados disponíveis nos sites do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Banco Central (BC).
Os cinco municípios brasileiros apresentam algumas características que podem explicar o alto índice de poupança. Também mostram algumas tendências de consumo que justificam a recomendação, para as empresas que quiserem explorar melhor esse público, de maior dedicação na hora de atrair esses consumidores.
A vida financeira dessas famílias é, normalmente, estável. E, por terem renda disponível superior à sua demanda na maior parte do tempo, conseguem guardar dinheiro. Eles residem em cidades com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) acima da média nacional. Apresentam alto grau de educação financeira. E, quando vão às compras, olham mais para o benefício do que para o custo.
"Apesar de essas pessoas serem mais instruídas, elas podem ter menos informações sobre determinados produtos e serviços [recém-lançados]. São mais conservadoras, querem arriscar menos e já têm certo conforto, principalmente aquelas [cidades] que contam com aposentados e idosos. Por isso, é muito difícil estimular o consumo sem que elas tenham a sensação de segurança em comprar", analisa a professora de Economia Comportamental Cristina Helena Pinto de Melo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Os dados mostram que os cinco municípios reúnem grande número de consumidores idosos ou aposentados, observa o gestor do Instituto de Pesquisas (Inpes) da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Leandro Prearo. Águas de São Pedro é o que tem mais destaque nisto, com 18,58% dos seus habitantes com 65 anos ou mais.
O município é conhecido por ter várias fontes de água mineral, o que movimenta o turismo local, e pela qualidade de vida, que atrai famílias de aposentados. Dados recentes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) comprovam esse perfil: os beneficiários da Previdência Social representam 23% da população de 3.073 habitantes.
O sossego parece atrair moradores de outras cidades, diz o analista de marketing Vinícius Storer, que atua na Acácia Imobiliária, de Piracicaba, a apenas 25 km de Águas de São Pedro. "Pelo que a gente vê, o principal perfil dos interessados em residências por lá são aposentados ou pessoas que buscam mais tranquilidade, por ser uma cidade turística e distante dos grandes centros urbanos", observa. No entorno da estância hidromineral, Piracicaba é uma das cidades mais desenvolvidas, com 388 mil habitantes e dona do 14º Produto Interno Bruto (PIB) paulista.
A sócia proprietária da Célio Imóveis, localizada em Águas de São Pedro, Fátima Nascimento, destaca ainda que a demanda por residências é, principalmente, de moradores de São Paulo e do ABC Paulista. "Geralmente eles nos procuram com a intenção de morar. Principalmente os aposentados", disse.
É justamente no ABC Paulista que está localizada São Caetano do Sul. Com 157.205 habitantes, atingiu no fim de 2014 R$ 2,161 bilhões de depósitos em poupança. Além das famílias que residem no município por gerações, devido ao seu alto IDHM, o primeiro do País, é procurado por pessoas que chegaram à estabilidade financeira e querem qualidade de vida.
Prearo, da USCS, observa que a média nacional de habitantes com 65 anos ou mais é de 7,36%. São Caetano do Sul tem 13,89%; Muçum, 15,38%; Monte Belo do Sul, 16,55%. Garibaldi tem a menor taxa, de 9,26%, e Águas de São Pedro a maior, com 18,58%.
Outro ponto em que os municípios se destacam é a proporção de aposentados pelo INSS. Garibaldi, com o menor patamar nessa estatística, tem 21% da população nessa condição. Muçum tem a maior fatia, com 39%.
O professor de Macroeconomia e Cenários Econômicos do MBA da Fipecafi, Silvio Paixão, analisa que o consumo dessa população, principalmente as pessoas com idade avançada, é mais regrado e com foco na melhor relação entre custo e benefício.
"Como consomem de maneira mais consciente, eles buscam produtos de maior valor agregado, associados à qualidade de vida", destaca Paixão.
Cristina, da ESPM, acrescenta que os serviços associados aos produtos, como no caso de um curso sobre como utilizar um smartphone ou um tablet, são muito desejáveis, tendo em vista que grande fatia desse público tem idade mais avançada do que a média.
Para a professora, empresas que reforçarem a qualidade de atendimento nos serviços mais demandados por idosos e aposentados têm maior chance de aumentar suas receitas. "Serviços de saúde e de segurança também são muito desejáveis para essas famílias."
Grandes empresas, como é o caso da TIM, já dedicam esforços para esse tipo de público. Entre os dias 15 e 18 de julho deste ano, a operadora realizou o Café com Android, projeto que visa estimular a terceira idade a desfrutar do mundo digital e explorar ao máximo as funcionalidades dos smartphones vinculados à marca no País.
Colonização
Cristina observa que a colonização de quatro das cinco cidades provavelmente influenciou na cultura de poupança. São Caetano do Sul, Monte Belo do Sul, Muçum e Garibaldi contaram com forte imigração italiana.
"Essas famílias da Europa vieram para o Brasil atrás de trabalho. Quando chegaram [nos séculos 19 e 20], passaram por muita restrição de bens e serviços e, naturalmente, trabalharam acima da média para compensar. Daí o rendimento mais alto e também a cultura de poupar para não passar o que já passaram", explica Cristina.
Garibaldi, que segundo o Ministério do Turismo é a primeira colônia de italianos do Rio Grande do Sul, atualmente é conhecida por ser também pioneira na produção de espumantes no Brasil, com início dessa atividade em 1913. A cidade tem 32.862 habitantes e R$ 446,17 milhões depositados na poupança (em 2014).
Grande parte da sua economia é focada em vinícolas, como a Garibaldi Cooperativa Vinícola, que conta com 370 famílias associadas. Outra atividade que gera riqueza ao município são os serviços aos cerca de 320 mil visitantes anuais que buscam conhecer as 21 vinícolas locais.
Com 2.712 moradores, Monte Belo dos Sul pode ser considerada a mais italiana das cinco cidades. Segundo o IBGE, foi colonizada por imigrantes italianos que começaram a chegar em 1877. Ao todo, eram 416 famílias italianas iniciando vida nova no Brasil. Mais de um século depois, seus descendentes acumulavam, no fim de 2014, R$ 36,718 milhões em depósitos de poupança.
No Brasil
No geral, o brasileiro é conhecido mais como consumidor do que poupador. De acordo com últimos dados do IBGE, a taxa de poupança do País foi de 16% no primeiro trimestre de 2015, uma queda com relação a igual período de 2014, quando atingiu 17%. No fechamento do ano passado, inclusive, esse percentual foi de 15,8%, também menor do que na mesma base de comparação (Também 17%).
No caso da poupança como investimento, este também não é mais tão rentável - nos últimos 12 meses, o desempenho desse tipo de aplicação, em relação à inflação, foi o pior desde 2003, ao pagar 7,47%, contra IPCA de 8,89%. Ao mesmo tempo que a crise econômica faz com que a pessoa física utilize sua renda para pagar dívidas ou, se tiver recurso extra, realize outros direcionamentos.

Fonte: DCI