Brasil

Com alta tímida na taxa de captação, ‘lucro com juros‘ dos bancos dispara

02/07/2015

Enquanto os juros médios cobrados nas instituições nos empréstimos subiram 5,9 pontos, para 42,5% ao ano, a taxa paga aos clientes para captar recursos aumentou 1,3 ponto, para 12,7%

Mesmo com o ciclo de alta da Selic, os bancos registraram um aumento tímido nas taxas pagas aos clientes para captar dinheiro, o que resultou em uma disparada do spread, que representa o "lucro" das instituições financeiras com a cobrança de juros.
Dados do Banco Central mostram que, enquanto a taxa média cobrada pelos bancos das empresas e consumidores nos empréstimos subiu 5,9 pontos percentuais em 12 meses até maio, para 42,5% ao ano, o juro pago aos clientes para captar recursos aumentou 1,3 ponto no período, para 12,7%.
O resultado fez com que o spread, que representa a diferença entre as duas taxas, avançasse 4,6 pontos, para 29,8 pontos percentuais. No caso dos consumidores, a evolução da margem das instituições financeiras foi ainda maior, avançando 7,4 pontos na variação anual, para um spread de 44,4 p.p.
Segundo especialistas ouvidos pelo DCI, o avanço do "lucro com juros" está relacionado principalmente à antecipação, pelos bancos, de um suposto prejuízo com calotes no futuro por conta da deterioração de variáveis como desemprego e inflação.
"Os bancos precificam hoje a inadimplência futura. Eles aumentam os juros para cobrir as possíveis perdas", explicou o professor de finanças da Universidade Estácio, Edson Mota.
Para o professor Luis Roberto Troster, economista do Conselho Federal de Economia (Confecon), a variável Petrobras também deve pressionar a inadimplência nas instituições financeiras.
"São mais de 80 mil empresas que serão afetadas pelo encolhimento da estatal, com todo esse plano de venda de ativos e problemas de caixa", observou. Petrobras anunciou anteontem um plano de desinvestimento de US$ 58 bilhões em quatro anos.
Além da expectativa de calotes, Troster apontou o avanço da taxa básica (Selic) - usada para balizar os juros de captação dos bancos - e o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) como outros dois principais fatores para o aumento dos spreads - o imposto, pago em todas as operações de crédito, subiu de 1,5% para 3% no início do ano.
Captação bancária
A série histórica do Banco Central mostra que em 12 meses, até maio, a Selic subiu 2,75 pontos, para o atual patamar de 13,75% ao ano. Os juros de captação dos bancos com recursos livres - em que as taxas são livremente definidas pelas instituições financeiras -, por sua vez, avançaram 1,3 ponto.
Em tese, os bancos deveriam pagar taxas mais altas que o governo para captar recursos, uma vez que os títulos públicos, cujo risco de calote está atrelado aos riscos do País, costumam ser considerados o investimento mais seguro.
De acordo com os especialistas, no entanto, as instituições financeiras estão bem capitalizadas - ou seja, possuem bastante recursos imobilizados em caixa - e sem apetite para novos empréstimos.
"Com isso, eles não têm necessidade de captar mais recursos e, consequentemente, não precisam oferecer taxas muito atrativas ao cliente", avaliou Mota, da Estácio.
Em seus balanços de resultados do primeiro trimestre de 2015, o Bradesco apontou um Índice de Basileia de 15,2% - ou seja, tinha R$ 15,20 em caixa para cada R$ 100 emprestados -, o Itaú de 15,3% e o Banco do Brasil de 16,02%. O indicador mostra o quão capitalizado o banco está para fazer frente aos riscos de perdas.
Para Troster, os spreads deverão continuar subindo diante da provável manutenção do aperto monetário em andamento - no último boletim Focus do BC, o mercado projetou a Selic em 14,25% ao ano no final de 2015 e uma inflação de 9,0%. "A inadimplência deve continuar crescendo", disse.

Fonte: DCI