Brasil

Queda de preços de insumos minimiza efeito negativo do câmbio na inflação

30/06/2015

De acordo com a FGV, as matérias-primas industriais registram alta de 3,76% em 12 meses, até junho deste ano, enquanto valorização do dólar ante o real chegou a 40%, no mesmo período

A queda de preços de alguns insumos no mercado externo tem ajudado a minimizar os efeitos negativos do câmbio sobre a inflação, devolvendo, dessa forma, um pouco de competitividade para a indústria exportadora do País.
O especialista em inflação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), Salomão Quadros, ao desagregar o Índice de Preços ao Produtos (IPA), informa que o item "materiais para manufatura" está registrando alta de 3,76% nos últimos doze meses terminados em junho. "Essa variação não representa nem 10% da valorização do dólar frente ao dólar durante o mesmo período, que foi de 40%. Ou seja, o câmbio está dez vezes maior que os preços dos insumos industriais", afirma o economista da FGV.
"Se, por um lado, o atual patamar do câmbio encarece a importação de insumos, por outro, a queda de preços compensa essa elevação, devolvendo um pouco de competitividade para a indústria", complementa ele.
No acumulado do ano, o dólar subiu cerca de 15% em relação ao real, calcula Quadros, enquanto a inflação de materiais para manufatura está com variação positiva de 2,61%. Nesse grupo, estão contemplados insumos como produtos químicos, alumínio, zinco, cobre e outros produtos voltados para a siderurgia. "Grande parte são matérias-primas utilizadas em mercadorias direcionadas para a exportação", detalha.
O especialista diz, contudo, que muitos componentes da inflação oficial, isto é, do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) afetam negativamente os custos dos produtores industriais, como as tarifas de energia. "Mas, para as empresas que têm canal aberto no exterior, o câmbio está ajudando e os custos das matérias-primas não serão um obstáculo", ressalta Quadros.
Câmbio real
Para o economista do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Luciano D‘Agostini, o Brasil ainda não alcançou o patamar de câmbio suficientemente ideal para as exportações. Para ele, o real teria que se desvalorizar um pouco mais para tornar mais competitivas as vendas externas do País.
"Existe o câmbio nominal que está entre R$ 3,10 e R$ 3,20, atualmente. No entanto, quando vamos fazer uma exportação, nós observamos a relação entre os preços brasileiros e internacionais, mais a paridade das moedas: isso é o câmbio real. O câmbio real, hoje, ainda não faz com que o Brasil seja competitivo internacionalmente", afirma D‘Agostini. Para o especialista, as exportações brasileiras seriam mais favorecidas se o câmbio nominal estivesse entre R$ 3,80 e R$ 4,00.
Entretanto, o economista da Cofecon afirma que a desvalorização do real evitou que o agricultor nacional tivesse perdas maiores de receitas. "Os preços das commodities caíram no mercado internacional. Se o País ainda estivesse com um câmbio a R$ 2,00, o agricultor exportador estaria ganhando menos. A valorização do dólar, nesse caso, veio em um bom momento e, praticamente, anulou a perda dos agricultores", avalia D‘Agostini.
Indicador
Conforme divulgado pelo Ibre-FGV ontem, o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) variou 0,67%, em junho. Em maio, o indicador havia registrado alta de 0,41%. A variação acumulada em 2015, até junho, é de 4,33%. Já em doze meses, o IGP-M registrou alta de 5,59%.
Segundo Quadros, foi o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) que contribuiu, em grande parte, para a alta do mês, registrando variação de 1,87%, acima do resultado de maio, de 0,45%. Isso aconteceu por conta dos reajustes salariais do setor em São Paulo e Rio de Janeiro.
Já o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) apresentou taxa de variação de 0,41%. No mês anterior, a taxa foi de 0,30%. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), por sua vez, registrou variação de 0,83%, em junho, ante 0,68%, verificados em maio.
O economista do Ibre-FGV, André Braz, avalia que o IGP-M deve desacelerar em julho e atingir uma taxa média de cerca de 0,50% no fechamento do mês que vem. A despeito de muitos alimentos in natura ainda estarem pressionando o indicador, ele acredita que a sazonalidade favorável para meses de maio e julho - e que ainda não aconteceram - possa refletir sobre os preços.

Fonte: DCI