Brasil

Câmbio deve continuar pressionando preços, mesmo com alta taxa de juros

11/06/2015

Apesar de a Selic em 13,75% ao ano ser atrativa para o capital estrangeiro, o movimento de valorização do real tende a ser amenizado por desconfiança de investidores, dizem especialistas

O câmbio deve continuar pressionando os preços no País, mesmo com a elevação da taxa básica de juros da economia (Selic), afirmam especialistas entrevistados.
O economista da GO Associados, Alexandre Andrade, diz que, apesar de a Selic alta atrair mais capital estrangeiro e provocar, portanto, uma valorização do real, esse movimento ainda tende a ser amortizado pela desconfiança de investidores e pelo alto déficit nas transações correntes do Brasil.
"Os juros elevados atraem capital externo para o País no curto prazo, o que tende a pressionar para baixo o câmbio [valorização do real frente ao dólar]. Por outro lado, outros fundamentos da nossa economia impedem esse movimento. A proporção do déficit em transações correntes em relação ao PIB [Produto Interno Bruto] brasileiro ainda é muito alta [4,53%]. Além disso, ainda há desequilíbrio fiscal e incertezas em relação à reorientação da política econômica", opina Andrade. A taxa Selic está, atualmente, em 13,75% ao ano.
Para o economista, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve se manter acima de 8% ao longo de todo o ano. Conforme divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ontem, a inflação chegou a alcançar, em maio, a taxa de 8,47%, em 12 meses, a maior desde o ano de 2003, quando o indicador bateu 9,3%. Em abril, o índice havia acumulado, em 12 meses, elevação de 8,17%. Na variação mensal, a alta de preços em maio foi de 0,74%.
Nas projeções de Andrade, a inflação deve alcançar seu ponto alto em julho, quando deve registrar alta de 8,7%. "Já para o final do ano, a expectativa é que o IPCA feche em 8,2%, com um viés de alta", afirma. Em junho, por sua vez, o índice pode variar 0,50%, segundo a GO Associados, "uma taxa alta para os padrões históricos do mês, que costuma registrar as variações mais baixas do ano", afirma.
O professor do Instituto Insper, Otto Nogami, também diz que os meses de junho e julho costumam registrar os menores patamares de inflação, o que não será diferente neste ano. "Provavelmente, a queda da inflação em junho e julho será menor do que a registrada nos mesmos meses de anos anteriores", diz o professor,
De acordo com a coordenadora do Índice de Preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, o IPCA de junho será pressionado pelos reajustes nas taxa de água e esgoto em seis regiões. Além disso, haverá impacto de aumento de tarifa de ônibus urbano, gás encanado e de apostas lotéricas.
No Rio de Janeiro, a taxa de água e esgoto teve um reajuste extraordinário de 4,05%, no dia 22 de maio. Em Belo Horizonte, o aumento foi de 15,03% (a partir de 13 de maio) e em Recife, de 3,51% (a partir de 20 de junho). Já em São Paulo, o reajuste chegou a 15,64%, a partir de 4 de junho, em Salvador a 9,98%, a partir de 6 de junho e em Curitiba, a 5,64%, a partir de 1º de junho.
Também haverá impacto da alta de 5,90% no gás encanado em São Paulo, a partir de 31 de maio, do reajuste de 12,50% nas tarifas de ônibus urbano em Belém, a partir de 16 de maio, e do aumento de 6,50% no valor do táxi em Fortaleza, a partir de junho, mas que ainda não tem uma data definida.
O aumento nos valores de apostas dos jogos lotéricos, por sua vez, também deve pressionar o IPCA. Em maio, o item subiu em média 12,76%.
Pressões
O economista da GO Associados também não descarta mais aumento nos preços dos combustíveis, em 2015. "O mercado doméstico de combustível voltou a ficar defasado em relação ao mercado internacional, os preços internos estão mais baratos", afirma Andrade, acrescentando que, por conta disso, deve haver um equilíbrio de preços nos próximos meses, resultando em mais aumento de combustíveis.
"Além disso, podemos esperar alguma pressão vinda do setor de energia elétrica, porque ainda não está muito claro qual é o montante de passivo das distribuidoras que precisa ser coberto. O aumento de preços de energia tem surpreendido os analistas e vindo acima das projeções", afirma.
Conforme foi determinado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a bandeira tarifária para o mês de junho segue na cor vermelha para todos os consumidores brasileiros. Essa bandeira estabelece o acréscimo de R$ 5,50 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.
O IPCA de junho, inclusive, voltou a ser pressionado pelas tarifas de energia elétrica. Com alta de 2,77%, o item voltou a ter a maior contribuição individual, responsável por 0,11 ponto percentual do índice do mês. A energia é um dos principais itens na despesa das famílias, com participação de 3,89% na estrutura de pesos do IPCA. Nas regiões onde não ocorreu reajuste anual, a variação nos valores das contas se deve a alterações nos impostos. É o caso da Região Metropolitana de Vitória, onde as alíquotas do PIS/Cofins tiveram elevação de 529,25%.
Com a alta de maio, o consumidor passou a pagar 41,94% a mais pela energia, no ano, e 58,47% em 12 meses.

Fonte: DCI