Brasil

Indústria de transformação possui baixo dinamismo no mercado externo

15/05/2015

Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que as atividades extrativas participam mais do comércio internacional; no 1º trimestre, representação chegou a 69,2%

Indicadores mostram que a indústria nacional de transformação apresenta um baixo dinamismo no comércio exterior, quando comparada às atividades extrativas.
Os Coeficientes de Exportação e Importação divulgados ontem pela Confederação Nacional Indústria (CNI) evidenciam essa diferença. No primeiro trimestre de 2015, por exemplo, as mercadorias exportadas pelo setor de transformação representaram 15,6% da produção do segmento. Já na indústria extrativa, essa participação foi de 69,2%, no mesmo período.
Apesar do desempenho menor, o segmento de transformação obteve recuperação ante o último trimestre do ano passado, quando caiu para 15,3%, após ter registrado participação de 15,5%, no trimestre anterior.
Na indústria extrativa, por sua vez, os números mostram avanço na representatividade das vendas externas. Nos dois últimos trimestres de 2014, as exportações participavam em 65,1% da produção do setor.
O Coeficiente de Penetração de Importações também revela um maior dinamismo da indústria extrativa. No primeiro trimestre deste ano, as importações participaram em 57,9% da produção extrativa, avanço de 5,7 pontos percentuais, em relação ao último trimestre de 2014, quando o indicador veio em 52,2%. No terceiro trimestre do ano passado, a participação era de 50,1%.
Já na indústria de transformação, o coeficiente registrou participação de 20,6% nos primeiros três meses deste ano, ante 20,4% no quarto trimestre de 2014 e 20,2% no trimestre imediatamente anterior.
Problema Estrutural
O professor de economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Orlando Assunção Fernandes, diz que a menor inserção do setor de transformação brasileiro no comércio internacional está relacionada a fatores estruturais e a um passado recente. "Ter atividades extrativas mais dinâmicas é herança de um modelo primário exportador que marcou o nosso processo de industrialização. Tem haver com a formação econômica do Brasil. No final dos anos 1970, a indústria de transformação, entretanto, passou a aumentar a sua participação no PIB [Produto Interno Bruto] do País e isso se manteve até os anos 2000, quando ocorreu o boom das commodities. Naturalmente, as atividades primárias passaram a ter mais incentivo", explica o professor.
Apesar da valorização do dólar frente ao real, ocorrida nos últimos meses, Fernandes diz que o câmbio, sozinho, não irá resolver os problemas históricos de baixa produtividade industrial do Brasil.
"A indústria de transformação, que é aquela que, de fato, agrega valor, exige um enorme grau de investimento, mudanças na carga tributária, investimentos em infraestrutura, entre outros", afirma.
A economista da CNI, Samantha Cunha, concorda com o professor e diz que os setores que estão registrando avanço nas exportações, por exemplo, são aqueles que, tradicionalmente, já participavam do comércio internacional. E que, para as indústrias que deixaram de exportar, ou que nunca tiveram contato com o mercado externo, o processo de inserção é mais difícil e tende a ocorrer mais no longo prazo.
O Coeficiente de Exportação da metalurgia, por exemplo, avançou para 34,7% nos primeiros três meses deste ano, ante 32,1% no último trimestre de 2014. Já o setor de madeira alcançou participação de 27%, ante 24,7%, considerando o mesmo período.
Maior importação
Fernandes chama a atenção para a série histórica dos dados da CNI, que evidenciam a maior participação das importações no consumo da indústria em relação às exportações. A representação das vendas externas na indústria de transformação, por exemplo, é historicamente menor, do que a presença das importações. O Coeficiente de Exportação do setor era, em 2010, de 13,6%, foi para 14,1% (2011), 15,1% (2012), 15,4% (2013) e 15,3% (2014). A série para o Coeficiente de Importação é de 16,3% (2010),17,4% (2011), 18,7% (2012), 19,8% (2013), 20,4% (2014). "Esses dados mostram que a indústria de transformação pode ter sofrido retração ou não ter tido fôlego para acompanhar o crescimento do consumo interno", diz o professor.

Fonte: DCI