Brasil

Com alta de juros, consórcio de veículos é opção para empresa

19/03/2015

Considerações. O ideal é que o empresário possua caixa para ofertar lances e consiga arrematar o crédito em pouco tempo ou insira o automóvel em planejamento de longo prazo da empresa

Com a alta dos juros e a maior restrição dos bancos na liberação de financiamentos, os consórcios de automóveis leves e pesados voltam a ser uma alternativa para empresas que precisam - ou projetam - renovar a frota.
O ideal, entretanto, segundo executivos do mercado ouvidos pelo DCI, é que o empresário tenha caixa para oferecer um lance no grupo do consórcio e consiga arrematar a carta de crédito em poucos meses, ou insira o veículo no planejamento de longo prazo da companhia.
Segundo José Hélio Fernandes, presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), o consórcio é uma excelente opção para pequenas e médias empresas, que possuem poucos veículos na frota.
"Se o empresário tem 20 ou 30 caminhões em sua frota, é mais complicado de se conseguir renovar por meio de consórcio", observou Fernandes.
No final do ano passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) alterou as regras para financiamento de veículos pesados via Finame (programa de financiamento de máquinas e equipamentos).
Com as mudanças, os juros aumentaram de 6% para 9,5% no caso de micro, pequenas e médias empresas, e de 6% para 10% para companhias de grande porte. Além disso, anteriormente, o banco subsidiava 100% do valor do veículo, enquanto agora as pequenas podem financiar apenas 70% e as grandes 50% do valor total do veículo.
"Agora, essa taxas [do Finame] foram trazidas para a realidade e, com isso, o consórcio [de caminhões] se apresenta como um opção custo mais baixo e prazos médios mais longos que os do BNDES", avaliou Ronald Macedo Torres, diretor da Rodobens Consórcio.
Torres afirmou que a Rodobens projeta crescer três vezes mais no segmento de automóveis comerciais neste ano em relação a 2014 - no ano passado, a companhia aumentou 3% o volume de crédito concedido pela o setor, um montante de R$ 700 milhões, enquanto neste ano espera crescer pelo menos 10%.
De acordo com ele, o foco do grupo em 2015 será empresas que buscam renovar a frota. "A concessão de financiamentos [pelos bancos] está mais rigorosa. O consórcio tem a seu favor o histórico de pagamento do cliente. Depois que ele paga cinco ou 10 parcelas [sem ser contemplado] cria-se um histórico de bom pagador", observou.
Outra frente que a Rodobens vê com bons olhos é o segmento de ônibus. "Estamos observando um aumento da demanda. Os empresários estão falando pra gente que, por conta de regulação municipal, estão precisando renovar a frota em prazos mais curtos", explicou Torres.
Segundo dados do Banco Central, a taxa de administração média para bens móveis (que incluem veículos pesados e leves) ficou em 14,9% em janeiro. Considerando o prazo médio da Rodobens, por exemplo, que, conforme Torres, é de 87 meses, o "preço" anual de um consórcio de caminhão ficaria em 2,74% - até 7,26 pontos percentuais menor que do BNDES, portanto.
Fernandes, da NTC, contudo, alertou que o produto pode ser arriscado para empresas que necessitam de renovação da frota em curto prazo. "No consórcio você não tem o bem em mãos imediatamente", ponderou.
Para ser contemplado na modalidade de crédito, o consorciado precisa ser sorteado ou oferecer um lance - montante de dinheiro que corresponde a um percentual do valor total do veículo. O maior lance leva a bolada do mês. Caso o consorciado não ofereça o maior lance, precisa esperar o próximo mês.
"É importante que o empresário pesquise e saiba suas necessidades e alternativas. A vantagem do consórcio é a flexibilidade somada ao custo baixo e ao poder de negociação", afirmou Paulo Roberto Rossi, presidente da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac).
Entre as alternativas, Rossi disse que o empresário pode "oferecer o antigo veículo como lance" no consórcio - o negócio, no entanto, precisa ser previamente combinado com uma concessionária que aceite adquirir o automóvel.
Além disso, o cliente pode negociar um desconto no veículo objeto do consórcio e até 10% excedente para pagar despesas como IPVA e seguro.
Veículos leves
Não somente os automóveis pesados, mas também o financiamento de veículos leves sofre com a alta de juros - a taxa básica (Selic) subiu 1,75 ponto percentual desde outubro do ano passado e está em 12,75% - e com o aumento da seletividade dos bancos nas concessões de empréstimos.
Dados do BC apontam que os juros do financiamento de veículos para empresas estão em 20,6% ao ano via crédito direto ao consumidor (CDC) e 15,7% no leasing. No caso dos consumidores, o juro está em 23,8% no CDC e 14,8% no leasing, ambos na medição anual.
Segundo Rogério Pereira Dutra, diretor comercial da Embracon, o prazo do consórcio de veículos leves populares fica entre 36 e 80 meses. Considerando o menor prazo e a taxa de administração de 15%, o preço anual do consórcio ficaria 5%.
Dutra apontou que o segmento de consórcio de veículos que mais cresceu na Embracon foi o de veículos de alto padrão, que tem tíquete médio de R$ 140 mil. A expansão, de acordo com ele, foi de 25% nos últimos três meses.
"Devido ao aumento dos juros, o cliente está migrando para o consórcio. Nesse caso, ele sempre procura antecipar [o crédito] com lances", disse.
Conforme publicado pelo DCI em fevereiro, os bancos perderam o interesse pelo financiamento de veículos, principalmente por conta dos custos para a tomada do bem em casos de calotes e dos altos riscos oferecidos pela linha.
A Embracon projeta um crescimento de 15% para o faturamento total este ano, contra os 20,2% registrado em 2014. Segundo Dutra, contudo, a companhia optou por usar o bom momento para o mercado de consórcios para realizar investimentos e ampliar o operacional da empresa, com a abertura de novas filiais e treinamento de novos vendedores.
Correção de preços
Outro item que os empresários e consumidores devem ficar atentos na contratação do consórcio é o índice de reajuste do valor do bem. Normalmente, os veículos leves são reajustados pelo indicador oficial da inflação, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Os consórcios de caminhões e ônibus, por sua vez, costumam ser corrigidos pela tabela de preços da própria montadora do veículo.
No caso de consórcio de imóveis, os preços são reajustados pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que nem sempre acompanha a valorização do prédio e costuma ficar abaixo da inflação.

Fonte: DCI