Brasil

Renda e cultura dos brasileiros estimulam vendas parceladas

06/01/2015

Valor agregado. Com aumento da demanda por antecipação de recebíveis por parte dos lojistas, e dos riscos, bancos elevaram muito os juros cobrados nesse tipo de operação no ano passado

A renda média do brasileiro, que ainda é um empecilho para que muitos produtos sejam adquiridos à vista, e a cultura da compra parcelada estimulam o crédito no País e fazem com que atualmente as vendas a prazo dominem o caixa dos empresários.
Embora amplie a capacidade de fazer negócios, a prática, entretanto, pode ser um complicador para saúde financeira das empresas, principalmente em tempos de fraca atividade econômica, afirmam especialistas ouvidos pelo DCI.
Segundo Daso Coimbra, chefe do Departamento de Operações Bancárias e de Sistema de Pagamentos do Banco Central, atualmente mais de 50% das vendas com cartão de crédito são parceladas pelos lojistas.
O técnico do BC ressaltou ainda que a quantidade parcelas é relativamente alta no Brasil e existe um grande hiato entre a venda e o recebimento nas transações com cartão. "E, quando o lojista faz o parcelamento, ele vai querer ir a algum lugar para antecipar os recebíveis", observou Coimbra.
Dados do último boletim de crédito da autoridade financeira apontam crescimento 4,2 pontos percentuais nos juros da antecipação de faturas de cartão de crédito nos últimos 12 meses, que encerraram novembro em 31,9% ao ano.
O relatório mostra também aumento em outras linhas de antecipação de recebíveis junto aos bancos: os juros do desconto de cheques cresceram 3,4 pontos percentuais no período, ficando em 37,9% ao ano, enquanto os do desconto de duplicata subiram 4,8 pontos percentuais, fechando novembro em 31,7% ao ano.
"Faz parte da estrutura do comércio a venda a prazo. A opção é não vender", afirmou o assessor econômico da Federação do Comércio de São Paulo (FecomercioSP), Altamiro Borges.
Renda e Cultura
De acordo com Borges, o Brasil possui um nível de renda que muitas vezes não permite ao consumidor pagar as mercadorias à vista. O economista ressaltou, contudo, que o parcelamento de parte das compras é uma questão cultural.
Para ele, a baixa renda do brasileiro explica a necessidade do parcelamento bens duráveis, que têm maior valor agregado e são mais caros, porém o parcelamento de bens não duráveis - como roupas e alimentos, por exemplo - é explicado pela cultura.
"Essa questão é tão gritante que o único lugar do mundo em que a [joalheria] Tiffany parcela as vendas é no Brasil. A loja é voltada para público de altíssima renda, que tem condições de pagar a joia à vista, mas, como o parcelamento está enraizado na cultura ela adotou a venda a prazo aqui no País", exemplificou o economista.
Borges disse que as vendas a prazo normalmente são prejudiciais para o empresário, principalmente quando os juros estão altos, por muitas vezes causarem atrasos nos recebimentos e descasamentos de caixa. "O comerciante sofre muito com isso, e é obrigado a buscar financiamentos e, às vezes, reduzir as margens", disse.
Segundo o economista, o que o lojista pode fazer para minimizar os impactos dos parcelamentos é adotar um regime de caixa - em que receitas e despesas são contabilizadas no momento do recebimento ou do pagamento.
Capacidade
Para Flavio Calife, economista da Boa Vista, administradora do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), embora os comerciantes prefiram vender à vista, as vendas a prazo ampliam a capacidade da empresa de fazer negócios. "Carro, por exemplo, praticamente não se vende à vista", apontou.
De acordo com ele, para que as linhas de antecipação de recebíveis sejam vantajosas, suas taxas devem ser menores que os juros embutidos nos preços das vendas a crédito. "O que o comerciante precisa analisar é o quanto ele pode aumentar sua receita na venda a prazo e quanto vai custar a antecipação, avaliando se esse custo vale a pena", analisou Calife.
O economista salientou que o cálculo muda à medida que as variáveis financeiras e econômicas se alteram. "Dependendo do momento em que ele está inserido, ele vai tomar essa decisão em relação aos instrumentos para conseguir crédito e os instrumentos para financiar o crédito", finalizou.
Classe C
Os especialistas também apontaram que a ascensão da classe C foi um fator fundamental para o aumento das vendas parceladas, puxadas pela ampliação do crédito, principalmente a partir da maior utilização do cartão.
"Houve um incremento da base de consumidores que usam o cartão como forma de pagamento. A população do Norte e do Nordeste entrou no mercado de crédito", avaliou o professor Marcelo Cambria, da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi).
Levantamento do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), feito com base em microdados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que, em 2014, 60,1% da população pertencia à classe C, o equivalente a 196 milhões de pessoas.
Em 1993, somente 30,9% dos brasileiros estavam inseridos nessa parcela, enquanto 63% pertenciam à classe D e E - a FGV considera da classe C pessoas com renda familiar entre R$ 1.734 e R$ 7.475.
"Sem dúvida, houve um aumento gigantesco dos parcelamentos com o crescimento da classe C, a partir de 2005. O que deu respaldo ao consumo dessa nova classe média foi o crédito", observou Borges.
Na avaliação de Cambria, o comerciante sente mais o impacto do descasamento entre o pagamento com cartão e o recebimento do crédito - hiato que pode ser de até 31 dias -, no início das operações. "Depois que entra no fluxo de caixa, isso se torna recorrência e fica mais fácil administrar", afirmou.
Segundo Coimbra, um dos itens que está no centro da pauta do Banco Central, dentro do tema de operações de crédito e sistemas de pagamento, é justamente esse hiato entre a transação com cartão na loja e o pagamento do crédito pela credenciadora ao comerciante.
"Esse pagamento no mundo inteiro é feito em dois dias e aqui em 31 dias. E existem países que estão virando para pagar em horas. Países como Chile, México", observou o técnico da autoridade monetária.
Estoques
De acordo com Borges, uma das formas que os lojistas encontraram de evitar a antecipação de recebíveis para lidar com a fraca atividade econômica de 2014 foi a administração de estoques.
"As empresas preferiram liquidar os estoques para fazer caixa", observou o economista.

Fonte: DCI