Brasil

Hipermercados se reinventam para sobreviver à competição

06/11/2014

Inovação para minimizar a perda de consumidores para outros formatos, em especial os atacarejos, redes ampliam oferta de serviços com o auxílio de franquias, restaurantes e lotéricas

O formato dos hipermercados estão em xeque. Considerados por muitos um modelo que já não responde mais às mudanças da sociedade, eles ainda enfrentam o crescimento da concorrência de operações com perfis diferentes, como as lojas de vizinhança.
Para não perderem a importância e, principalmente, manter a rentabilidade, vários modificaram a operação com a inserção de galerias de serviços. Porém, mesmo com o baixo investimento que esse nicho tem recebido das redes supermercadistas nos últimos 10 anos, ele continua a ser um formato com alto faturamento.
Dados do ranking Ibevar (das maiores empresas do País), apontam que os hipermercados, somados aos supermercados e aos atacados, superaram R$ 214 bilhões em faturamento ano passado, ou seja, 56,5% do montante arrecado no período pelos 120 maiores players do varejo brasileiro.
Ainda segundo o levantamento, das 55 companhias que atuam no segmento de varejo alimentar, 30 têm receita anual na casa do bilhão. "Os hipermercados mantêm a rentabilidade devido ao número de produtos ofertados. Outro ponto é que a venda de bens duráveis [geladeira, fogão, televisão] ajuda a ampliar a lucratividade", diz ao DCI o economista da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Flávio Tayra.
O especialista no setor explicou também que no passado um dos diferenciais dos hipermercados era a precificação. "Chegamos a ter lojas com 50 check-outs. Eram espaços que conseguiam armazenar um número realmente significativo de produtos. O volume maior de estoque ajudava na política de preço mais competitivo", disse, concluindo: "Hoje, os hiper têm o mesmo preço dos supermercados e das operações de vizinhança. O diferencial está na oferta de produtos, e não mais na precificação".
Concorrência
Especula-se que o maior concorrente dos hipermercados são as lojas de vizinhança, que de cinco anos para cá têm ganhado destaque no País e na estratégia de vários grupos. A verdade é que os atacados foram transformados em "atacarejos", podendo ser considerados um dos algozes dos hipermercados. "Quem oferece a possibilidade de compras de abastecimento com preços competitivos e em diversos locais? Os atacados", enfatizou o diretor de Foodservice da GS&MD - Gouvêa de Souza, Sérgio Molinari.
Segundo o especialista, no entanto, mencionar uma possível falência do modelo no Brasil é, no mínimo, leviano. "Os hipers faturam, ao ano, cerca de R$ 150 milhões, enquanto um minimercado, R$ 2 milhões. Qual é o formato mais interessante para uma rede varejista?", questionou ele.
Outros dados que ressaltam a importância do hiper são os números das quatro principais redes supermercadistas no Brasil. O Walmart pode ser considerado a bandeira com os maiores hipermercados em operação: são 544 lojas divididas entre as marcas Big, Hiper Bompreço e também Walmart.
Em segundo - em número de unidades - está o Extra, pertencente ao Grupo Pão de Açúcar (GPA), com 137 lojas no País. "O Extra Hiper trabalha no conceito one stop shop, proporcionando ao consumidor a praticidade de encontrar tudo o que ele precisa em um único lugar. A marca conduz mecânicas promocionais bem agressivas, com foco em levar as melhores ofertas aos clientes", afirmou a empresa.
Na sequência está o Carrefour. Hoje, a rede opera 102 hipermercados, sendo 18 sob o conceito Nova Geração - modernização do layout que será levado a outras unidades nos próximos anos. "Em 2016, o total de hipermercados transformados sob esse conceito chegará a 60. Trata-se de um projeto arquitetônico inovador, com layout moderno, desenvolvido a partir de extensa pesquisa qualitativa sobre o comportamento e preferências do consumidor brasileiro", afirmou a empresa, em nota, reforçando os esforços em modernizar o seu formato de hipermercado.
Por último, está a rede Cencosud, de origem chilena. No Brasil, ela opera 34 lojas em formato de hipermercado das bandeiras GBarbosa, com foco no Nordeste, e 10 lojas Bretas, com atuação em Goiás (GO) e Minas Gerais.
Modificações
Molinari ressaltou que o principal aspecto dos hipermercados, em tempos passados, estava na política agressiva de preço. "O fundamento do hipermercado era em um ambiente grande, oferecer um amplo sortimento de produtos a preços econômicos. A origem dos hiper está associado a isso e junto ao baixo nível de serviço ofertado também", disse. De acordo com ele, "o atacado consegue fazer a mesma coisa. Com isso, os atacarejos conseguem drenar a performance dos hipermercados e trazer a sensação de que pode cair em desuso no Brasil daqui a alguns anos. Mas isso não vai acontecer. Ainda existem muitos locais que podem receber um hiper no País".
É notável que os supermercados e as lojas de vizinhança ocuparam um papel importante no gosto do consumidor. Pesquisa da Nielsen identificou que nos dias atuais há menor frequência de idas ao supermercados - até quatro vezes ao mês - e uma maior diversidade de canais, logo os locais que oferecem serviços agregados como o hiper, costumam levar a melhor .
Estudo da Abras apontou também que de 2001 a 2013 as redes passaram a dar mais importância a esses serviços. Farmácias cresceram em importância nas redes supermercadistas, assim como oferecer casas lotéricas, postos de gasolina, lojas de roupas, salões de beleza e demais atividades. "Muitos hipermercados apostaram em galerias comerciais. Isso torna a operação atrativa ao consumidor", explicou o economista da Abras, Tayra.
A Cencosud ressaltou ao DCI, a importância de estar em constante modernização dos hipermercados. "A Cencosud possui uma ampla expertise na operação de hipermercados na América Latina e no Brasil. Para acompanharmos as mudanças dos hábitos da população brasileira e do comportamento de consumo, os 44 hipermercados que operamos contam com lojas amplas e sessões variadas, que oferecem serviços diferenciados a fim de garantir uma maior comodidade com a presença de farmácias, perfumarias, lotéricas e lojas de diversos segmentos", afirmou, em nota .

Autor: Flávia Milhassi
Fonte: DCI