Brasil

Bancos públicos voltam a impulsionar crédito

31/10/2014

Instituições privadas seguirão seletivas na concessão de empréstimos às pessoas físicas e aos pequenos e médios empresários por conta da falta de recuperação da economia brasileira

A alta da taxa básica de juros (Selic) de 11% para 11,25% ao ano deve elevar em cadeia os juros nas linhas de financiamento com recursos livres e direcionados e afetar o crescimento do crédito na economia em 2014, apesar da retomada em setembro último.
Na avaliação do professor e diretor-presidente do Instituto Fractal, Celso Grisi, depois da última alta da Selic dificilmente o crédito na economia crescerá 12% em 2014. "O crescimento deverá ficar entre 10% e 11% nesse ano. Os bancos comerciais vão continuar muito seletivos na concessão de empréstimos", diz.
De acordo com o boletim do Banco Central (BC) divulgado ontem, o crédito na economia apresentou crescimento de 1,3% em setembro, e 11,7% em doze meses e atingiu a marca de R$ 2,9 trilhões ou 57,2% do produto interno bruto (PIB).
Esse aumento foi puxado principalmente pelo crédito direcionado de bancos públicos como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em financiamentos de investimentos e na agroindústria, e pela Caixa Econômica Federal na concessão de crédito imobiliário. "Os bancos privados também avançaram em crédito imobiliário e em linhas que tenham algum tipo de garantia como recebíveis e desconto de duplicatas", acrescentou Celso Grisi.
Por outro lado, mesmo o crédito direcionado já ficou mais caro em setembro, subiu 0,1 ponto percentual para 8,1% ao ano. O spread (diferença entre o custo de captação e taxa final cobrada pelos bancos) dos bancos no crédito direcionado subiu 0,2 pontos percentuais em setembro para 0,3 pontos percentuais.
"Vai demorar um pouco para a alta da Selic alcançar o crédito direcionado do BNDES, pois o banco trabalha a partir da TJLP [taxa de juros de longo prazo], mas haverá um preocupação com o financiamento a investimentos", diz o economista e presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-SP) e da Ordem dos Economistas do Brasil, Manuel Enriquez Garcia.
Ele também apontou uma certa "paralisia" na concessão do crédito consignado em setembro. "É preciso mais confiança na economia", diz.
Como contraponto a expectativa de menor ritmo de crescimento do crédito, o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicolas Tinga, acredita que a dinâmica do quarto trimestre ainda pode ser positiva no setor. "Será um trimestre um pouco melhor, mas há cautela de todos os lados, do consumidor e de pequenos e médios empresários em tomar crédito", diz.
Grisi contou que os bancos brasileiros estão "muito líquidos" devido aos estímulos do próprio governo com a flexibilização do compulsório (depósitos obrigatórios das instituições no Banco Central).
"Os bancos estão com tantos recursos que as taxas de captação caíram. Ao mesmo tempo, os juros estão subindo, com isso os spreads (prêmios) estão crescendo", diz Grisi.
De fato, o boletim de crédito do BC mostra que a taxa de captação caiu de 8,4% ao ano em agosto para 8,3% ao ano em setembro. No início de 2014, a taxa de captação era de 8,9% ao ano, ou seja, uma queda de 0,6 pontos percentuais desde o mês de janeiro.
Cautela com calotes
Garcia também acredita que os bancos ficarão ainda mais cuidadosos na concessão de crédito. "Quando se aumenta o juro também se aumenta o risco de fazer empréstimos como os do cheque especial e em cartões de crédito. Quanto maior esse juro, maior o risco de inadimplência. Os bancos conhecem o risco dos calotes", diz o presidente do Corecon.
Em setembro, a inadimplência (calote) com recursos livres ficou estável em 5%, enquanto calote em crédito direcionado, mais barato, caiu a 0,9%. "No final de ano é momento para liquidar as dívidas", recomenda Celso Grisi, da Fractal.

Autor: Ernani Fagundes
Fonte: DCI