Brasil

Após um ano, cadastro positivo ainda tem baixa adesão de consumidores

20/10/2014

Serviço pode ajudar a aumentar os prazos para empréstimos a consumidores e reduzir os juros; no caso da oferta, bancos têm mais garantias, reduzindo os riscos e garantindo ganhos de escala

Um ano e dois meses depois de ser criado, o cadastro positivo, cujo objetivo é criar uma base de dados de bons pagadores, conseguiu somente cerca de 2 milhões de adesões diante de um universo de 98 milhões de pessoas economicamente ativas do País - relação que representa pouco mais de 2% dos clientes potenciais.

O principal entrave, segundo apurou o DCI, é a obrigatoriedade imposta por lei de que o consumidor autorize a inclusão de seus dados no serviço - em alguns outros países em que o cadastro foi implementado, como nos Estados Unidos, as empresas que administram o serviço não precisam de autorização do cliente para a captura de informações, mas as pessoas podem pedir a retirada de seu nome do sistema se assim quiserem.

Criado em agosto de 2013 no Brasil, a ideia do cadastro positivo é que birôs, como Serasa Experian e Boa Vista SCPC, tenham acesso a dados financeiros de consumidores, como contas de água, luz, escola, além de operações bancárias, para criar um histórico de pagamentos e facilitar a tomada de crédito, possibilitando prazos maiores e juros menores.

O serviço é semelhante ao cadastro negativo, que as birôs de crédito já mantêm, porém trabalha com o mérito do bom pagador. A lei que regulamenta o instrumento estipula que qualquer empresa com patrimônio líquido mínimo de R$ 20 milhões pode administrar um banco de dados de cadastro positivo - para receber informações de bancos, cujos dados são sigilosos, o patrimônio líquido mínimo exigido, contudo, é de R$ 70 milhões.

A Serasa, uma das firmas que oferece o serviço, possui um banco de dados de 1,2 milhão de pessoas. Na avaliação da gerente de cadastro positivo da empresa, Fernanda Monnerat, o

processo de inclusão caminha em ritmo satisfatório, considerando a necessidade de autorização do cliente para captação de informações.

Médio prazo

O trabalho de ampliação do cadastro, de acordo com ela, é de médio prazo. "Por enquanto, estamos em um processo de estruturação do serviço, aprimorando o processo de coleta. Nós acreditamos que a disseminação levará de três a quatro anos", estipulou.

Um dos principais benefícios do instrumento citado pelos especialistas ouvidos pelo DCI foi a inclusão social. "Muitas vezes, as classes C, D e E não conseguem acesso a crédito, mas pagam a conta em dia", afirmou o CEO da empresa de recuperação de crédito PH3A, Paulo Cesar Costa.

"O que acontece é que os bancos não têm acesso a essas informações e não têm garantias para fazer o empréstimo. Com o cadastro positivo, eles teriam um padrão de comportamento e teriam mais facilidade em fazer a concessão", completou Costa.

Para Monnerat, além trazer para o sistema financeiro as pessoas não bancarizadas, o serviço também atrai para os bancos o clientes que têm conta, porém, não tomam crédito pois os juros "não condizem com os riscos que ele oferece".

Com o cadastro, o crédito poderia ser ofertado a juros menores e prazos maiores. De acordo com o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) Marcel Solimeo, o instrumento também pode servir de educação financeira, evitando que os consumidores se superendividem.

"Com a ascensão da classe C, houve uma grande demanda por crédito - pessoas que antes não tinham acesso, passaram a ter. Com isso, houve muito endividamento, pois um banco concedida crédito sem que soubesse que outro também já havia concedido, com base em um mesmo salário. Isso ajudou a aumentar a inadimplência", observou.

Vantagem para bancos

Olhando para o lado da oferta, Solimeo afirmou que, além da redução dos riscos na liberação de crédito - e a consequente diminuição da inadimplência, com a maior seletividade - os bancos também podem ter ganhos de escala, com a ampliação da base de clientes, o que compensa a "perda" da redução de juros.

Na avaliação de Costa, porém, os bancos foram um dos responsáveis pelo pequeno avanço do cadastro no País. "Os bancos não querem reduzir os juros cobrados", disse.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI