Brasil

Firmas usam cheque especial para capital de giro e quebram

15/10/2014

Micro e pequenas empresas. As companhias de menor porte são as mais suscetíveis ao problema, por terem maior dificuldade no planejamento financeiro e maior restrição a linhas de crédito

O representante de vendas Ernesto de Souza tinha uma empresa de confecção de roupas infantis na Lapa. O negócio ia bem até começar a receber cheques sem fundos e acabar entrando no cheque especial para garantir o capital de giro da firma. Após cerca de um ano com a conta no "vermelho", a loja de Souza quebrou.
A situação vivenciada pelo lojista é uma realidade enfrentada por muitas firmas no Brasil, principalmente micro e pequenas empresas.
Segundo a assessora econômica da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Kelly Carvalho, o uso do cheque especial para financiar o capital de giro acontece principalmente pela falta de planejamento financeiro e a dificuldade que as empresas menores têm para conseguir linhas de crédito com juros melhores.
"A gente vê que, para aliviar o fluxo de caixa, as empresas acabam fazendo acordo com as instituições financeiras. Como a dificuldades para ter acesso a recursos está crescendo, porque está aumentando as garantias pedidas, as empresas acabam entrando no cheque especial", explicou Carvalho.

Fora de controle

Após começar a tomar crédito por meio do cheque especial, com a conta sempre no "vermelho", a dívida de Souza, que era próxima de R$ 10 mil, passou para mais de R$ 50 mil dentro de um ano, por causa dos juros cobrados.
"O desespero é muito grande. O comerciante sempre tem a esperança que no mês seguinte vai recuperar tudo aquilo que deixou de ganhar, mas nem sempre acontece", observou Souza.
Segundo o Banco Central, a taxa média praticada pelo Itaú - banco em que Souza era cliente - no cheque especial para empresas, atualmente, é de 173,44% ao ano. No Santander, banco que pratica as maiores taxas, de acordo com a autoridade monetária, a taxa é de 303,30% ao ano.
A solução encontrada por Souza foi procurar a Associação Brasileira do Consumidor (ABC), que é especializada em renegociar dívidas com bancos. Marcelo Segredo, diretor-executivo da ABC, explica que, ao ser procurada, a associação faz um pente-fino na dívida e traça a melhor estratégia para recuperar a empresa.
"No caso de algumas empresas já é melhor entrar com um pedido de recuperação extrajudicial. Tem empresa que está tão enrolada com dívida, que o empresário não dá conta, mas a empresa já faliu", explicou o diretor.
Na maior parte das vezes, entretanto, é possível renegociar a dívida ou entrar com uma ação revisional na Justiça, que consegue baixar juros, taxas e tarifas praticadas pelos bancos.
Segundo Segredo, a média de desconto conseguido pela associação é de 75% do valor total da dívida - no caso de Souza, a dívida ficou em R$ 10 mil e foi paga em quatro parcelas de R$ 2,5 mil, sem juros.
"O problema é que é uma bola de neve. O empresário antecipa o recebível [com antecipação da fatura de cartão, por exemplo] no banco, mas o devedor não paga. Aí ele entra no cheque especial para ter capital de giro. Quando as taxas do cheque especial ficam impraticáveis, muitas vezes entram em outra linha de crédito", disse.

Oscilações econômicas

De acordo com Carvalho, as micro e pequenas empresas são mais frágeis às oscilações da economia e encontram mais dificuldade de se manter no mercado em períodos de desaceleração econômica.
"Elas acabam sofrendo mais com a concorrência, têm mais dificuldade de barganhar com fornecedor, e acabam se endividando mais", observou. "Diante desse cenário de incertezas que vivemos, as micro e pequenas empresas estão vendo as vendas reduzirem", completou.
Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que uma a cada quatro empresas de pequeno porte fecham as portas até dois anos após iniciar as operações.
Segundo o diretor da ABC, há um ano, sete em cada 10 pessoas que procuravam a associação eram pessoas físicas e três eram pessoas jurídicas.
Hoje, a proporção se inverteu. Ele conta que 78 firmas, em média, procuram o escritório mensalmente, número 73,5% maior que em 2013.

Estratégias

Segredo explica que uma das estratégias usadas pela associação é comparar a dívida lançada pelos bancos no Sistema de Informações de Crédito (SCR) do BC com a dívida efetivamente cobrada pelas instituições financeiras, que pode ter diferença. "Sempre vale a pena consultar", disse o diretor.
O DCI teve acesso a uma ação de execução movida pelo Santander conta uma pessoa física, ainda em andamento, cujo valor cobrado é de R$ 78,8 mil. No SCR a dívida informada, para a mesma pessoa, foi de R$ 16 mil.
Para o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri, uma das formas de evitar tomar empréstimos para cobrir o capital de giro é a empresa se provisionar. "No caso do 13º, por exemplo, o ideal é guardar um valor correspondente a 8% do salário ao mês e antecipar os custos do fim do ano. O cheque especial, pesa nessa provisão", explicou.
Em caso de aperto, Alfieri disse que é preferível que o empresário use capital próprio ou negocie com um sócio a garantia do fluxo de caixa da companhia do que tomar empréstimos.
Segredo, contudo, prevê um cenário ruim para 2014: "as multas de encargos trabalhistas, se o dono não paga o salário em dia, são pesadíssimas. No final do ano, muitas empresas vão entrar no cheque especial para garantir os salários".
Outro lado
O DCI pediu um posicionamento sobre os juros praticados no cheque especial ao Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander, na sexta-feira e reiterou o pedido ontem.
O Banco do Brasil informou que não iria comentar. A Caixa afirmou que o cheque especial é destinado para utilização em "curtíssimos prazos", para emergências, e que "as empresas são orientadas à utilização adequada do crédito nas diversas modalidades, coerente com a destinação dos recursos". Os demais bancos não responderam os questionamentos.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI