Brasil

Economistas defendem choque de juros em 2015 para controlar preços

06/10/2014

De acordo com especialistas, é preciso um reajuste imediato das tarifas de energia e transporte, além de uma maior flexibilização nas metas de inflação do País para equilibrar economia

Economistas avaliam que, no próximo ano, o governo deve promover um choque nos juros do País para que a inflação consiga ceder. Além disso, afirmam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) não deve sofrer grandes pressões até do ano.
Para o economista e sócio da Troster Associados, Roberto Luís Troster, um dos caminhos para reduzir a inflação, após às eleições, seria um choque "mais duro" na taxa básica de juros (Selic).
"A vantagem do choque de juros é que o Banco Central sinaliza mudanças mais rapidamente, atingindo as expectativas. Dessa forma, o impacto é mais forte [sobre a inflação]". afirma Troster.
Além disso, o economista sugere um reajuste imediato das tarifas de energia e transporte, além de uma meta de inflação em 5,5% ao invés de 4,5%. "Está muito difícil, hoje, atingir uma inflação de 4,5%. Uma meta fixada em 5,5% é mais plausível", diz.
Para ele, com aumento de juros, mudanças no regime de metas e reajuste nas tarifas de energia e transportes é possível acelerar o processo de redução das taxas de inflação, pois, dessa forma, ocorrem mudanças nas expectativas dos empresários e da população do País.

Dinamismo

"A inflação é um processo dinâmico. Porque diminuir as tarifas de energia e transportes não resolveu o problema da inflação? Porque todo mundo percebe que elas estão defasadas e, por conta disso, os preços acabam aumentando", afirma Troster.
O presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), Manuel Enriquez Garcia, diz também que o instrumento da taxa de juros atua mais sobre as expectativas do que provoca efeito sobre a procura de crédito. "Aumento dos juros é um sinal que o Banco Central acaba dando aos agentes econômicos de que ele está atento [à variação de preços] e que se necessário, ele pode apertar a politica monetária para evitar que a inflação fuja do controle", afirma Enriquez Garcia.

Crédito

Outra medida econômica que Troster sugere para 2015 é o fim dos depósitos compulsórios. "Dessa forma, a taxa passiva dos bancos sobe e a taxa ativa desce, diminuindo, assim, a inadimplência. [...] No canal do crédito você minimiza impacto", diz Troster.
Para ele, a outra forma de reduzir a inflação seria "um tratamento gradual" em relação a inflação, sem um aumento mais abrupto dos juros.
No entanto, Troster diz que, em função de um crescimento econômico mais lento, esse caminho é o mais "perigoso".
Nos cálculos do economista, o patamar da inflação, sem os preços controlados está na casa dos 7,5%. "Se você tirar os preços dolarizados, esse valor está em 8,5%. Essa é a inflação que você sente no bolso. É preciso reverter isso rapidamente", ressalta Troster.

Aperto fiscal

O economista da OEB afirma que um aperto fiscal no próximo ano é necessário para controlar a alta de preços.
"Precisamos de um governo que, de fato, se interesse em controlar os gastos públicos. Além disso, que execute a meta de superávit primário previsto. A bala da taxa de juros já deu o que tinha que dar", diz Garcia.
"O controle das contas públicas causa um mal estar grande, porque corta gastos de consumo da máquina pública", complementa ele.
O professor de economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Orlando Assunção Fernandes, também diz que a variação da taxa de juros no ano que vem depende de um ajuste fiscal mais elevado. "Se houver um ajuste fiscal mais sólido, a tendência é não jogar tanto o peso da inflação em cima da taxa de juros", diz Fernandes.
"O índice de preços não tem cedido, porque estamos com um resultado fiscal negativo", complementa.
Na última semana, o resultado fiscal do setor público, divulgado pelo BC, mostrou que o déficit nas contas públicas está em R$ 14 bilhões.

Estimativas

O economista e sócio da GO Associados, Gesner Oliveira, afirma que as estimativas para o IPCA no último trimestre não devem sofrer grandes alterações. "Temos duas pressões inflacionárias: uma depreciação do câmbio e um desrepresamento dos preços. No entanto, eu não acredito que a maior flexibilização dos preços administrados irá ocorrer muito rapidamente. O câmbio é difícil de prever, mas eu acredito que não dará um salto", diz Gesner.
"No entanto, temos dois amortecedores dessa pressão: o preço mais baixo das commodities e a desaceleração da demanda. Essa compensação, portanto, irá manter a inflação próxima do teto da meta", finaliza o economista da GO Associados.
Para Garcia, tudo indica que, mesmo após as eleições, o limite superior da meta deverá ser mantido.
"Não estou vendo nenhuma explosão inflacionária, nada que venha comprometer, embora seja desconfortável mais um ano com a inflação batendo quase 6,5%", diz o economista da OEB.

Autor: Paula Salati
Fonte: DCI