Brasil

Alta do dólar afetará comércio de importados só em 2015

02/10/2014

Donos de importadoras afirmam que dólar acima de R$ 2,50 é sinônimo de crescimento 30% menor no ano que vem. Muitos pretendem comprar da indústria nacional

A disparada do dólar colocou os importadores em estado de alerta. Com a cotação próxima a R$ 2,50 e sem sinal de mudança nesse patamar, muito já preveem um 2015 com queda nas vendas em até 30%.
Para reverter esse quadro as empresas devem repassar o aumento da taxa de câmbio no preço ao consumidor e procurar a indústria nacional para o fornecimento de algumas categorias de produtos.
"O consumidor é o primeiro a deixar de comprar importados quando ocorre uma alta excessiva do dólar", afirmou a proprietária da Di Vetro, Celi Silva. Mesmo atuando no promissor setor de cosméticos - que deve movimentar R$ 50 bilhões no ano que vem -, a empresária já começou a sentir reflexo nas vendas, enfraquecidas ao longo deste ano. "Setembro, por exemplo, foi um mês atípico. Vendemos 20% menos que no mesmo período de 2013."
Por estar com os estoques das 15 lojas (a empresa opera como franquia) abastecidos para a venda do último trimestre do ano, o reflexo de um câmbio mais alto será sentido mais para frente. "Se o dólar continuar a subir, as perdas podem ser de 15% a 20% no ano que se aproxima", disse a executiva.

Iniciativa

A estratégia da Di Vetro para evitar que 2015 comece com perspectiva de vendas fracas é procurar pela indústria nacional. Mas isso só ocorre em algumas categorias como a de sabonetes líquidos e hidratantes, por exemplo. "O cliente começa a procurar pelos produtos mais baratos, logo, compramos algumas categorias de fornecedores nacionais para atender essa demanda", explica Celi ao DCI.
Questionada sobre uma possível estocagem de produtos - caso o dólar volte ao patamar de R$ 2,20 -, a executiva afirma que isso só traria inflação ao setor e que a Di Vetro não fará. "Fazer estoque, além de aumentar os custos operacionais das lojas, faria com que os preços fossem impactados pela inflação", diz a executiva.
Um dos diferenciais da rede de franquias está em ser importadora direta, sem intermediários. "Sem um terceiro no processo, conseguimos descontos que variam de 7% a 18% que são revertidos ao consumidor", explicou, acrescentando que, mesmo quando negocia com os revendedores autorizados, como o da marca Carolina Herrera, a empresa consegue preços bem mais em conta, afirmou Celi.
A estratégia para "sobreviver" à flutuação do câmbio adotada pela importadora Latinex (alimentos) será engavetar alguns projetos e focar no fortalecimento da marca. "Algumas iniciativas serão adiadas com o dólar a esse preço, porque ao invés de crescer cerca de 50%, podemos chegar a apenas 15% no ano que vem", lamentou o empresário Eduardo Moraes.

Instabilidade

Na opinião dele, o que mais atrapalha não é quando o dólar está em alta e sim a instabilidade da moeda norte-americana. "Quando se tem uma estabilidade cambial conseguimos nos planejar. Quando a oscilação é constante, o repasse do preço na ponta da cadeia é inevitável", disse. Moraes explica que há dois anos a Latinex tem segurado o repasse, mas se não houver nenhuma medida que contenha essa ascensão da moeda estrangeira, o consumidor é quem arcará com isso. "Não conseguiremos mais segurar o repasse, mesmo sendo a nossa estratégia vender produtos de qualidade com preços competitivos", acrescenta o empresário.
Em 2013, o País passou por situação similar e a experiência traumática, fez com que as importações apresentassem queda no acumulado desse ano.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) divulgados ontem apontou queda de 2,2% nas importações. "Até o momento não fomos impactados por esse dólar alto. Se ele tornar os preços proibitivos, as vendas aos varejistas [mais importantes] é que vão nos fazer crescer menos no período", concluiu o executivo em entrevista.

E-commerce

Com três anos de mercado, a loja virtual de artigos de decoração com design criativo (fun design) Fábrica 9 prefere não pensar no efeito dominó que o dólar acima de R$ 2,45 pode trazer às suas vendas. "Não tinha parado para pensar nisso", disse o sócio diretor do e-commerce, Vitor Gomes.
O executivo afirmou que esse ano tem sido muito complicado para o Fábrica 9 e que as vendas ficaram muito abaixo do esperado. "Tivemos Copa do Mundo que nos atrapalhou muito e desde o começo do ano sentimos a economia andar de lado", disse.
Com 50% do seu portfólio importado, a solução também será optar pela indústria nacional para abastecer os estoques. "Não deixaremos de comprar os importados, mas o estoque desses artigos será muito pequeno", explicou ele. Sem os produtos importados, Gomes estima que as vendas possam cair de 30% a 40%. "Os importados ajudam na venda de produtos nacionais", argumentou.
O que preocupa - mais que o dólar em índices assustadores - é a qualidade inferior e a pouca oferta de artigos de decoração de fun design ofertados pela indústria brasileira. "O produto brasileiro é nitidamente inferior aos importados. Além disso, aqui não se tem a cultura do design divertido, o que não nos ajuda a encontrar mercadorias que chamem a atenção do consumidor", enfatizou Gomes.
Para não perder o consumidor e recuperar as venda, a Fábrica 9 tem apostado em ações de marketing. "Estamos reinventando a forma de divulgação da nossa loja", concluiu.

Artigos esportivos

Na opinião do proprietário da importadora Froés - responsável pelas marcas Fila Skates, Divoks e Kryptonics, no Brasil - Márcio Fróes, só será possível dizer que o câmbio será um limitador de crescimento após as eleições, no próximo domingo. "Acredito que a oscilação ocorrida em setembro é reflexo da instabilidade no cenário eleitoral. Passado isso, o câmbio provavelmente voltará ao patamar de R$ 2,20", disse.
Froés explicou que os seus estoques estão 90% abastecidos, e os 10% restantes já estão embarcados e chegando ao País. "As compras são sempre antecipadas. Se houver impacto ainda este ano ele será mínimo".
Para o próximo ano, se não houver nenhuma intervenção do governo e a moeda norte-americana passar dos R$ 2,50 - ontem fechou cotada em R$ 2,48, o que representa alta de 1,5% -, a Froés terá de repassar o preço ao consumidor. "O repasse será inevitável no curto prazo. Sem ele, a margem, que já é apertada, será mais enxuta."

Autor: Flávia Milhassi
Fonte: DCI