Brasil

Aumento da seletividade dos bancos puxa queda em saldo de capital de giro

02/10/2014

O estoque das operações de curto prazo - menos de um ano - passou de R$ 62,6 bilhões para R$ 55,1 bilhões do início de 2013 até agosto

O estoque de crédito de capital de giro concedido a curto prazo - financiamentos de menos de um ano - despencou desde o início de 2013 até agosto deste ano. As taxas de juros, em contrapartida, aumentaram ao sabor da Selic.
Para economistas ouvidos pelo DCI, a queda é explicada pelo aumento da seletividade dos bancos, que estão buscando reduzir os riscos nas concessões, e pelo momento econômico, que reduziu a demanda por crédito.
Segundo o último boletim de política monetária do Banco Central, divulgado na semana passada, enquanto em janeiro de 2013 o saldo dessa linha de crédito (considerando apenas os recursos livres, cujos juros são definidos pelos bancos) era de R$ 62,6 bilhões, no mês passado o volume passou para R$ 55,1 bilhões - queda de 11,98%.
No mesmo período, por sua vez, os juros dessa linha de crédito saltaram de 17,8% ao ano para 20,2% ao ano, um crescimento de 13,48% - a Selic passou de 7,25% ao ano para 11% ao ano.

Preferência

De acordo com o economista da Boa Vista SCPC,Flávio Calife, as instituições financeiras nacionais estão dando preferência às grandes empresas - que apresentam menor risco e mais garantias - em detrimento das pequenas na liberação de crédito.
"As linhas de capital de giro de curto prazo costumam ser usadas por empresas menores. Quando os bancos começaram a aumentar a seletividade de suas carteiras, passaram a priorizar empresas maiores e elas costumam pegar crédito de longo prazo", disse.
Por isso, segundo o economista, apesar da desaceleração econômica, o estoque de capital de giro de longo prazo - mais de 365 dias - segue aumentando, embora em ritmo menor. O boletim do BC aponta que o saldo dessa linha de crédito aumentou 11,91%, passando de R$ 265,3 bilhões para R$ 296,9 bilhões, no período.
"A linha [de capital de giro de curto prazo] também perdeu participação na carteira de capital de giro como um todo. Antes, ela representava 17% da carteira, hoje representa cerca de 14% do total", avaliou.

Migração

Calife explicou que, com o aumento da seletividade bancária, as empresas menores começaram a ter mais dificuldade para financiamentos de capital de giro e acabaram migrando para as linhas de prazo ainda mais curto, como desconto de duplicata e conta garantida.
"O capital de giro está sendo substituído por essas modalidades, que tem juros maiores, porém exigem menos trâmites operacionais e tem menores políticas de análise de crédito", observou. Conforme apontado pelo DCI na segunda-feira, os juros das linhas de crédito de curto prazo continuam crescendo, na contramão da taxa média dos recursos livres, que apresentou retração.
Conjuntura
Para o analista da UM Investimento Ivo Seixas, a queda está vinculada ao "cenário econômico conturbado" por qual o País passa. "Desaceleração econômica, contas públicas se deteriorando, Selic alta, carga tributária pesada: tudo isso impacta um pouco e levou a uma redução na demanda por capital de giro", avaliou.
Os juros dessa modalidade de crédito, segundo o analista, seguiram o aumento da Selic.

Futuro

Calife afirmou que a tendência é que a economia continue crescendo em ritmo desacelerado e haja redução no estoque de crédito como um todo. "A seletividade dos bancos deve continuar, assim como a dificuldade de se obter empréstimos", apontou.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI