Brasil

Na contramão da média, taxa de juros de crédito a curto prazo mantém alta

29/09/2014

Desconto de duplicatas, descontos de cheques e cheque especial apresentaram crescimento, enquanto taxa média de juros para recursos livres caiu 0,3%

Boletim de crédito divulgado na sexta-feira pelo Banco Central (BC) aponta que, apesar da taxa média de juros dos recursos livres ter apresentado leve retração de julho para agosto, os juros das operações de curto prazo - chamados "créditos ruins" - mantiveram alta.
Segundo o BC, enquanto as taxas dos recursos livres - em que os juros são determinados pelos bancos - apresentaram queda de 0,3 ponto percentual de julho para agosto, fechando o mês em 21,1% ao ano, tanto as taxas de pessoas físicas quanto as de empresas tiveram alta quando analisado o curto prazo de concessões.
No campo das pessoas jurídicas, as duas principais linhas de antecipação de recebíveis, o desconto de duplicata e o desconto de cheques, apresentaram crescimento de 0,2 ponto percentual no período, fechando agosto em 32,6% e 37,7% ao ano, respectivamente.
O crescimento vem de uma onda de alta: nos últimos 12 meses, os juros de desconto de duplicata tiveram aumento de 4,7 pontos percentuais e os de desconto de cheque apresentaram alta de 4,9 pontos percentuais.
Já para as famílias, a taxa de juros do cheque especial teve alta de 0,4 ponto percentual de julho a agosto e de 33,9 pontos percentuais em 12 meses, fechando agosto em 172,8% ao ano, conforme divulgado pela relatório da autoridade monetária.

Incerteza

Para o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas, a incerteza do mercado futuro contribuiu para o aumento da demanda por crédito de curto prazo. "Uma parte do aumento dos juros é precificação dos riscos e a outra é o custo do dinheiro [quanto os bancos públicos e privados pagam para captar recursos]", afirmou.
De acordo com ele, outro fator que contribuiu para o crescimento dos juros foi a desaceleração da economia que, aliada à incerteza, fez com que as empresas e famílias ficassem receosas de tomarem empréstimos de longo prazo.
"[No futuro], as vendas vão melhorar? A empresa vai estar com uma capacidade de pagamento melhor ou pior? São essas dúvidas que surgem na hora da avaliação do fluxo de caixa", observou.

Aposta

O professor de economia da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) Silvio Paixão afirmou que o seguro dos bancos contra a inadimplência são os juros. "Não acho que a tendência seja a taxa de juros cair. Existe uma situação de desconforto do mercado como um todo", avaliou.
Para o economista, o cenário econômico continua "nervoso". Paixão disse que existe um processo de insegurança, e a tomada de crédito depende da aposta que as empresas fazem em relação ao futuro.
"O grande desconforto é sobre a perspectiva de aumentar ou não o faturamento. Diante da incerteza, quem é um pouco mais precavido ou conservador, tende a diminuir a demanda por crédito. Os mais agressivos tomam mais crédito", analisou.

Cenário

O boletim do Banco Central mostrou que o saldo de crédito do sistema financeiro estava em R$ 2,8 trilhões em agosto - crescimento de 1% em relação a julho e 11,1% em 12 meses.
O volume de concessões, por sua vez, apresentou uma queda 0,5% de julho para agosto, fechando o mês em R$ 305,2 bilhões liberados pelos bancos. Os spreads - diferença entre o custo de captação e os juros de empréstimos das instituições financeiras - também apresentaram queda, de 0,4 ponto percentual, fechando agosto em 12,7 pontos.

Seletividade

Segundo o analista de bancos da Austin Ratings, Luiz Miguel Santacreu, os dados da autoridade monetária mostram um cenário de seletividade das instituições financeiras nas concessões e a concentração dos empréstimos em linhas de crédito de menor risco. "As estatísticas mensais têm sido mais do mesmo", observou.
O analista avalia que a redução dos spreads mostra justamente a seletividade dos bancos nos empréstimos. "O controle do spread tem o efeito positivo sobre a inadimplência e consequentemente nas provisões, dessa forma, os bancos conseguem assegurar rentabilidade e lucro", disse.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI