Brasil

Empresários buscam solução para impacto da crise hídrica

23/09/2014

Preocupados com a perspectiva de racionamento e falta de água, industriais se reuniram em São Paulo para discutir o tema. Mas as saídas encontradas ainda são exceção

A crise hídrica que afeta, principalmente, a região Sudeste do Brasil tem levado industriais a discutir alternativas para captação e gestão de água utilizada na produção.
Sem previsão para recuperação dos reservatórios, devido a falta de chuvas, os industriais têm demonstrado preocupação quanto aos reflexos nos custos da produção. "A crise hídrica traz muita insegurança para os empresários e já tem levado o setor a adotar medidas de contingência", destacou o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Rafael Cervone Netto, durante debate realizado ontem (22) na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Uma das soluções encontradas por algumas fábricas têm sido a captação e a reutilização da água.
A Ambiental MS Projetos, que desenvolve soluções sustentáveis para empresas, começou a trabalhar mais intensamente com projetos de reuso nos últimos seis anos e viu a demanda aumentar em 2014.
"Mas os empresários só buscam soluções de economia quando o custo desses recursos aumenta ou por alguma exigência do governo, em função da legislação", conta o sócio diretor da Ambiental, Sérgio Cintra. A empresa deve faturar 30% mais neste ano em relação a 2013, segundo Cintra.
Mudança
Para o empresário, a solução para a falta de água depende de incentivos do governo. "Oferecendo benefícios fiscais aos equipamentos e a instalação desses sistemas, o governo pode ajudar na mudança para um modelo mais eficaz", diz.
Ele explica ainda que, por meio de mudanças na legislação, as autoridades podem exigir que as novas construções incluam a estrutura necessária para comportar projetos de captação de água da chuva e reutilização.
O maior problema, segundo Cintra, ainda é o alto custo e o tempo para instalação desses sistemas. "As grandes indústrias já perceberam que vale a pena investir em alternativas, porque consumo de água para esse grupo é custo. Mas as pequenas e médias empresas ainda não entenderam a importância dessa mudança para os negócios", avalia.
Embora os períodos de seca não sejam uma novidade, os dirigentes da Fiesp e Ciesp demonstraram preocupação com a previsão para o próximo ano. "[O tema] faz com que a gente fique apreensivo com o planejamento dos governos, seja a nível federal, estadual e municipal", comentou o presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, na abertura do debate.
Críticas
Os industriais aproveitaram o evento para cobrar do governo um plano de ação para o futuro. A ideia é viabilizar um planejamento dos investimentos preventivos e projetar a produção sem risco de falta de um insumo classificado por eles como essencial para a atividade.
"Uma preocupação é a outorga dos poços artesianos, que não estão sendo renovadas pelo governo, excluindo uma opção que alguns industriais tinham em momentos de crise", destaca Rafael Cervone Netto, do Ciesp.
O aumento do custo da energia para as indústrias também é citado por Netto como um dos problemas que a seca tem trazido para a atividade industrial.
"Todos esses fatores juntos tem levado a mais perda de competitividade da produção brasileira", conta o dirigente.
Químicos e bebidas
Fabricantes de produtos químicos e de bebidas são mais prejudicados pela escassez de água, segundo o diretor do Ciesp em Jacareí, Ricardo Esper.
A Ambev, por exemplo, tem metas específicas de economia de água, de acordo com a assessoria de imprensa da empresa. Para economizar de água, a maior cervejaria da América espera reduzir o consumo interno de água para 3,2 litros para cada litro de bebida envasado. Em geral, o setor de bebidas consome 5,5 litros de água para cada um de cerveja produzido.
A empresa, entretanto, preferiu não comentar o atual período de seca na Região Sudeste.
Já a Basf, indústria química alemã, reduziu em 52,4% o consumo de água por tonelada produzida no Brasil desde 2002. Atualmente, 10% do volume total de água utilizado passaram a ser reutilizados. No complexo químico de Guaratinguetá, a empresa faz captação de água no Rio Paraíba e com isso a produção não foi afetada, informou a Basf, em nota, ao DCI.
Pequenos e médios
Ricardo Esper observa que enquanto as maiores se preparam mais, as empresas menores não têm dinheiro para investir e ficam dependentes do sistema.
O diretor comercial da Daicast, empresa de injeção de alumínio para indústria automotiva e agrícola, relata dificuldade em viabilizar a construção de poços artesianos, devido a demora na autorização ambiental. No caso da Daicast, instalada em Guarulhos (SP), a solução encontrada foi a compra de água distribuída por caminhões pipa. Isso porque captação de água foi descartada. "Como vamos fazer captação de chuva se não chove?", questiona.
No final de abril, o presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Químicos para Fins Industriais e da Petroquímica no Estado de São Paulo (Sinproquim), Nelson Reis, disse ao DCI que as pequenas indústrias são as mais afetadas pela crise hídrica no estado. "Principalmente as pequenas empresas, que dependem do suprimento da rede, começam já a sentir problemas", disse, na época.
Perspectiva
O professor da Universidade de Campinas (Unicamp), Antônio Carlos Zuffo, avalia que a situação caótica do abastecimento de água deve ser prolongada. Segundo ele, as chuvas no próximo ano ficarão abaixo da média e a tendência é que nas próximas décadas o volume de precipitações diminua. "O próximo ano pode ser ainda pior".
Para o pesquisador, o adiamento das medidas de restrição do consumo, ou seja, o racionamento, foi o maior problema e agravou o quadro da crise.

Auotr: Jéssica Kruckenfellner
Fonte: DCI