Brasil

Mesmo com cenário adverso, bancos estão prontos para ‘choques‘, diz BC

22/09/2014

Relatório de Estabilidade Financeira divulgado ontem aponta provável queda no crescimento das três principais receitas do setor

Relatório de Estabilidade Financeira divulgado ontem pelo Banco Central apontou que mesmo com provável queda no crescimento das três principais fontes de receita - tesouraria, crédito e serviços - os bancos brasileiros estão preparados para crises.
Segundo o BC, as instituições financeiras têm condições de suportar efeitos de choques provenientes de "cenários macroeconômicos adversos" - como baixo crescimento econômico - ou de mudanças abruptas nas taxas de juros, de câmbio ou de inadimplência.
O apontamento, entretanto, resultado de uma simulação de alterações extremas nas principais variáveis econômicas e financeiras, considerou os riscos para o cenário daqui a seis trimestres, ou seja, em dezembro de 2015.
Receitas
De acordo com relatório da autoridade financeira, até junho de 2014, o retorno sobre o patrimônio líquido do sistema financeiro foi impulsionado com os ganhos com tesouraria - provenientes de investimentos feitos, principalmente, em títulos do tesouro -, resultado da sequência de alta da taxa básica de juros (Selic).
Os ganhos com serviços também mantiveram alta, sustentadas pelo mercado de cartão de crédito, diz o BC.
A previsão do BC, entretanto, é que, com a manutenção da Selic em 11%, o crescimento da receita de tesouraria diminua. Embora a rentabilidade com serviços tenha aumentado no período, o crescimento das receitas do setor também está em desaceleração. Os ganhos com crédito, por sua vez, estão em queda desde junho de 2013 e tendem a continuar dessa forma, por conta das restrições impostas pelos bancos às concessões.
Adversidades
Ao mesmo tempo que o relatório divulgado pela autoridade monetária aponta queda na renda dos bancos, ele também afirma que a inadimplência não deve apresentar mais redução - de forma que permanecerá estável ou aumentará.
O documento diz ainda que, apesar de estarem adequadas para "um novo ambiente, que aponta para leve aumento do risco", as provisões das instituições não devem mais continuar nessa onda de queda - isto é, os bancos precisarão deixar mais dinheiro parado em caixa.
Cortes
O diretor de fiscalização do Banco Central, Anthero Meirelles, afirmou que, para aumentar sua rentabilidade sobre a receita, as instituições financeiras precisam de mais margens ou reduzir seus custos operacionais.
"Há limitações para o crescimento da margem, consequentemente, a forma de ganhar mais é por meio de eficiência", observou. A afirmação corrobora apontamento do relatório, que diz que "o ganho de rentabilidade dependerá, em grande parte, da capacidade de os bancos ganharem eficiência por meio de contenção de despesas".
Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), divulgada na semana passada, mostrou que os bancos já fecharam 3,2 mil postos de trabalho nos primeiros oito meses de 2014.
Saúde
Para Luiz Carlos Lemos, especialista em finanças da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os bancos brasileiros têm condições para enfrentar qualquer tipo de crise por dois motivos: eles se organizaram para os possíveis choques - como aumento da inadimplência, gerada pelo baixo crescimento econômico - e formaram um patrimônio sólido.
"Bancos têm lucros astronômicos há anos. Esse patrimônio formado serve de colchão para amortecer qualquer impacto que venha a abater sobre eles", avaliou o professor.
Já Samy Dana, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV, disse que "não está preocupado com a saúde dos bancos".
"O spread - diferença entre a taxa de captação e o juro final do empréstimo - segue aumentando, mesmo com a Selic estável", disse. Segundo o relatório, as taxas de juros livres para pessoas físicas fecharam junho em mais de 40% ao ano.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI