Brasil

Construção civil e automotivo acentuam queda da siderurgia

15/09/2014

Excesso de capacidade de produção global pressiona preços do aço

As siderúrgicas enfrentam um cenário complexo, no País. Além do excesso de capacidade global, que pressiona de forma significativa os preços do aço, as usinas devem amargar novamente um ano de queda, também em razão da baixa nas atividades da construção civil e de veículos.

Para 2014, a projeção de analistas consultados pelo DCI é de recuo tanto da produção de aço quanto do consumo aparente. "A construção civil tem perdido dinamismo e a reação da indústria automotiva não está vindo a contento. Claramente, o ano será bastante fraco na siderurgia", afirma o economista da LCA Consultores, Wermeson França.

De acordo com o analista de siderurgia e mineração da Tendências Consultoria, Felipe Beraldi, este será um ano fraco, principalmente, por conta do baixo desempenho da construção civil.

"As importações de vergalhões têm crescido no Brasil, mas não por falta de oferta interna e sim pelo aumento de competitividade do produto importado", destaca.

Neste ano, entrou em operação a planta de aços longos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda (RJ), estreia da empresa de Benjamin Steinbruch em um segmento amplamente dominado pela gaúcha Gerdau, no País. Com isso, a capacidade instalada deste tipo de aço aumentou ainda mais.

No final de 2013, a Gerdau também adicionou capacidade ao mercado doméstico ao inaugurar sua unidade de aços planos em Ouro Branco (MG). "Um dos grandes problemas, atualmente, é o excesso de oferta no mundo. No Brasil, também temos capacidade entrando em operação, o que pressiona o mercado doméstico", destaca Beraldi.

Estimativa da Tendências Consultoria aponta que a produção de aço bruto deve fechar este ano com queda de 1,2% (com viés de baixa) ante declínio de 1% em 2013.

Os cálculos da LCA mostram ainda mais pessimismo. A projeção da consultoria para 2014 é de um recuo de 2% da produção de aço bruto, número que pode cair ainda mais dependendo do desempenho do setor no quarto trimestre.
Ainda segundo a Tendências, o consumo aparente de aço deve registrar queda de 1,8% em 2014 ante crescimento de 4,8% registrado no ano passado. "Infraestrutura, imobiliário e automotivo tiveram demanda fraca no primeiro semestre e a perspectiva para o segundo também é de desaceleração", pondera Beraldi.

Preços

Diante de uma demanda enfraquecida, as siderúrgicas têm pouco espaço para aumento de preços. Além disso, com o derretimento da cotação do minério de ferro na última semana (que atingiu a maior baixa desde outubro de 2012, variando na casa dos US$ 81,90 por tonelada), a pressão sobre o aço tem crescido muito.

"Os preços globais vêm recuando sistematicamente", destaca Beraldi. A média registrada em agosto deste ano para contratos futuros de vergalhões na Bolsa de Xangai foi de US$ 492 por tonelada. Já na semana passada, a cotação atingiu US$ 441,6 a tonelada.

Para o analista da LCA, a queda acentuada dos preços do minério de ferro só deve pressionar ainda mais as siderúrgicas. "Atualmente, o mercado está muito mais para o comprador de aço do que o produtor", pontua França.

Potência global

A China se destaca globalmente em inúmeros segmentos, mas na siderurgia é ainda mais agressiva, pois detém cerca de 50% da produção mundial. Somente no primeiro semestre deste ano, enquanto a indústria brasileira produziu cerca de 16 milhões de toneladas de aço bruto, o país asiático registrou uma produção de mais de 300 milhões de toneladas.

"Com isso, os preços do aço vêm caindo de forma significativa", observa o sócio de transações corporativas da EY (nova marca da Ernst & Young), Sérgio Menezes.

No entanto, a China vem realizando um movimento para fechar as minas mais poluentes em um esforço para diminuir a poluição. "Já não é de hoje que essa substituição vem ocorrendo e o processo deve continuar", avalia Menezes.

Ainda assim, o país asiático continuará tentando escoar seus volumes monumentais de aço pelo mundo, inclusive no Brasil. "Olhando para frente, a nossa visão é que, em termos de preços e demanda no mercado brasileiro, 2015 será semelhante a este ano", destaca.

Autor: Juliana Estigarríbia
Fonte: DCI