Brasil

Microcrédito à pessoa física dispara, mas inadimplência também aumenta

10/09/2014

Especialistas apontam que o resultado está relacionado à conjuntura econômica do País e à obrigação imposta aos bancos pelo governo federal, em 2003, para estimular modalidade

O microcrédito para pessoa física disparou em 12 meses, registrando alta de 33,9% e fechando julho de 2014 com saldo de R$ 5,51 bilhões. Os dados constam no último balanço divulgado pelo Banco Central.

Em consonância com o aumento da demanda, entretanto, a inadimplência também cresceu, anotando alta de 2,4 pontos percentuais - em julho, o volume de pessoas que estava há mais de 90 dias atrasados com seus compromissos foi de 7,8%.

O diretor executivo de estudos e pesquisas econômicas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Oliveira, afirmou que os resultados do primeiro semestre de 2014 são consequência da conjuntura econômica do País.

Inflação

Oliveira avalia que a inflação, que ficou em 6,5% no período, na medição do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e incidiu principalmente sobre alimentos e serviços, atingiu de forma mais pesada os consumidores de baixa renda.
"Com isso, essas pessoas foram buscar recursos nos bancos e o microcrédito é uma linha de crédito para esse público. Isso explica o aumento da demanda", analisou o especialista. Da mesma forma, de acordo com o analista, o cenário econômico - composto por inflação, juros altos e baixo crescimento - influenciou no aumento da inadimplência.

Para o analista da Austin Ratings, Luiz Miguel Santacreu, o aumento do volume de microcrédito está relacionado ao estímulo do governo federal, realizado em 2003.

Obrigação

Desde este ano, os bancos são obrigados a destinar 2% dos depósitos à vista (dinheiro depositado na conta corrente) para o microcrédito. "Dessa forma, à medida que o banco vai aumentando sua captação, ele precisa emprestar uma maior volume nessa linha de crédito", observou Santacreu.

O especialista, no entanto, avalia que o microcrédito é positivo para a economia. "É um passo a mais que o Bolsa Família. Com essa política [de estímulo ao microcrédito] alinhada aos órgãos de apoio ao empreendedor, como o Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], cria-se uma pequena economia que é importante para determinadas pessoas. Além disso, se têm mais pessoas contribuindo com a economia", disse.

Bancos

De acordo com o analista, da mesma forma que o microcrédito possui um lado negativo para os bancos, pois quem toma esse tipo de empréstimo possui poucas garantias concretas para oferecer de contrapartida, também possui um lado positivo.

"O tomador de crédito tem todo interesse em pagar, porque se ele falhar no compromisso, não vai conseguir uma taxa melhor em nenhuma outra linha. o lado positivo, que pode incentivar os bancos a emprestar, é justamente esse interesse do cliente em ser pontual", avaliou.

Segundo o boletim do Banco Central, a taxa de juros ficou em 14,7% ao ano em julho de 2014. Embora tenha crescido 5,1 pontos percentuais no período, ainda ficou menor que a taxa do cheque especial, que fechou o mês com juros de 172,4% ao ano para pessoas físicas, e o crédito consignado, que ficou em 25,9% ao ano, na média.

Tendência

Os especialistas avaliaram que a tendência é que o microcrédito continue a aumentar, assim como a inadimplência.
Para Oliveira, por conta do cenário econômico, os bancos continuarão receosos em fazer empréstimos com maior risco, porém a demanda por crédito continuará a crescer.

"Vai continuar a aumentar, principalmente se comparada a outras linhas de crédito mais caras [com juros maiores]. Em contrapartida, as dificuldades da economia também continuarão", finalizou.

Autor: Pedro Garcia
Fonte: DCI