Mundo

Bancos sul-americanos no País atuam como ponte para negócios no exterior

03/11/2015

Endurecimento de normas internacionais, como Basileia 3, vem dificultando essas transações; queda nas operações entre Brasil e Argentina pressiona os resultados locais de banco argentino

As subsidiárias de bancos sul-americanos no Brasil atuam como ponte para empresas que buscam negócios entre o País e a nação de origem da instituição. O endurecimento de normas de conduta internacionais, porém, vem dificultando essas transações.
Sem foco em um setor específico, o Banco de la República Oriental del Uruguay (BROU) costuma atuar com empresas de menor porte que decidem apostar em um novo negócio. A instituição financeira também adota uma política mais rigorosa de análise de riscos de crédito, prática que, segundo fontes, vem desde antes da crise econômica brasileira.
Uma fonte ligada ao banco afirmou que muitas das companhias que procuram a subsidiária brasileira operam nas zonas francas do Uruguai e querem trazer os produtos para o País. "O Uruguai acaba como um entreposto de produtos de exportação. Trazer um produto chinês de lá para o Brasil é muito mais rápido do que se viesse direto da China", observou.
O caminho inverso, de empresas brasileiras que buscam negócios nos países onde os bancos estão sediados, também é comum nessas instituições financeiras.
O DCI apurou que no caso do Banco de la Nación Argentina (BNA), que é estatal, a ideia é fomentar a comercialização de bens argentinos, seja com apoio ao exportador, seja ao importador brasileiro. "O foco do banco é o financiamento bilateral Brasil e Argentina", disse uma fonte ligada à instituição financeira.
Os resultados dos bancos estrangeiros variam. No primeiro semestre deste ano, a filial brasileira do BROU anotou lucro líquido de R$ 3,47 milhões, puxado, principalmente, por um bom resultado com juros e câmbio, que alcançou R$ 6,1 milhões. Já o BNA vem de uma sequência de saldos negativos desde 2011, com prejuízo de R$ 761 mil até junho.
De acordo com Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio-diretor da Barral M. Jorge Consultores Associados, parte do prejuízo anotado pela subsidiária no Brasil vem da queda do comércio entre o País e a Argentina - o volume de negócios entre os países somou R$ 21,6 bilhões entre janeiro e setembro, queda de 17,9% em relação ao mesmo período de 2014.
Endurecimento
Uma fonte ligada a uma instituição financeira estrangeira disse que o endurecimento do controle dos bancos centrais, por conta dos princípios de Basileia 3 (acordo internacional sobre regulação e conduta bancária), está dificultando as transações. "Os bancos estão pressionados a controlar mais a origem do dinheiro das empresas", afirmou.
Segundo Barral, desde 2008 os Acordos de Basileia tendem a exigir mais compliance nas regras de financiamentos. "O Banco Central do Brasil, que já era conservador, agora está ainda mais", avaliou.
O especialista disse ainda que outras regras de conduta internacionais, como convenções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), também pressionar maior transparência nas operações dos bancos, ainda que o Brasil não faça parte do órgão.
"A OCDE está criando compromissos voluntários para bancos centrais para incentivá-los a serem mais exigentes, a exigir que os bancos conheçam o cliente, peçam documento, saibam a origem do dinheiro", afirmou.
De acordo com uma fonte do setor, é possível se identificar uma empresa com dinheiro de origem ilícita apenas pelo "cheiro". "E, ao se perceber, é só saber dizer: ‘não, obrigado‘".
Oportunidades
Com o mercado financeiro brasileiro concentrado nas mãos de poucos bancos, a oportunidade para as instituições estrangeiras está em nichos e áreas inexploradas ou deixadas de lado por essas instituições financeiras.
Normalmente, as operações de comércio exterior ligadas ao agronegócio, especialmente no setor de grãos e açúcar e etanol, são dominadas pelos gigantes do mercado. "Esses grandes bancos têm muita capilaridade. É preciso encontrar os pontos onde eles não estão atuando", disse Barral, lembrando que o Brasil possui várias oportunidades.

Fonte: DCI